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A
IMPRENSA E O PODER
FERNANDO
HENRIQUE CARDOSO
O tema que me propõe
o Jornal do Brasil permite, pelo menos, duas leituras. Se "imprensa e
poder" refere-se às relações entre imprensa e governo, registraria apenas
que numa democracia elas devem ser de total independência e mútuo respeito.
Qual o poder do "poder" hoje, no Brasil, sobre a imprensa? Ao con trário
do que alguns possam imaginar, nenhum. E é bom que assim seja. Bom para
a sociedade, que pode cobrar o atendimento a suas legítimas reivindicações,
e bom para o governo, que descobre seus próprios erros mais eficaz e mais
rapidamente do que de outro modo ocorreria.
Se a imprensa, por
outro lado, é aí colocada em contraste, ou contraponto, ao poder, resta
a pergunta, muitas vezes escamoteada, sobre o poder da própria imprensa.
Nesse sentido, não creio se possa dizer que a imprensa tenha jamais vivido
momento de maior liberdade em nosso país do que nos últimos seis anos,
o que conforta minha convicção democrática da vida inteira. Tal-vez a
história recente estaria melhor retratada no título quase inverso, "o
poder da im-prensa". Esta situação requer da imprensa, como de qualquer
outro poder, profundo senso de responsabilidade.
Na verdade, os poderes
Legislativo e Judiciário, mais a imprensa, constituem mecanismos permanentes
de fiscalização de que a sociedade dispõe sobre quem governa. Não por
coincidência são os primeiros setores a serem visados e desmontados por
regimes autoritários de qualquer coloração ideológica. Esse mandato de
fiscalização não exime tais instâncias, antes pelo contrário, de serem
elas mesmas submetidas aos requisitos da transparência e da fiscalização
constante pela sociedade.
Esse poder crescente
e bem-vindo da imprensa é fruto de dois processos convergentes, tanto
no plano das sociedades nacionais como no da ordem internacional.
Internamente, a luta
vitoriosa pela democracia na maior parte dos países do globo valeu-se
muito da coragem da imprensa e a reforçou, como verdadeira ponte entre
a sociedade e o Estado, e vice-versa. No plano internacional, o processo
de globalização deu lugar central à informação, e portanto à imprensa,
na vida das sociedades. Esse, me parece, é o sentido profundo da expressão
"sociedade da informação", que hoje tem alcance genuinamente universal.
Entender a globalização
apenas como integração de mercados é perder de vista suas dimensões societais
talvez mais amplas. A revolução real não está ocorrendo nos pro cessos
de produção, mas sim na velocidade e profundidade com que se expandem
os vínculos e as trocas de informações em escala planetária. Nunca como
hoje teve tantas implicações concretas o ser um "cidadão do mundo". Que
um computador seja produzido com peças do mundo inteiro é menos relevante
do que o fato de que esse mesmo computador possa servir a pessoas do mundo
inteiro para terem acesso a informações sobre literalmente qualquer assunto.
Da mesma forma, entretanto,
que a globalização propriamente econômica arrisca congelar-se como globalização
assimétrica, a globalização na área da informação aponta para o perigo
de um mundo dividido entre países produtores e países consumidores de
informação. As imagens que vemos na TV e as notícias que recebemos por
meio da internet são em sua maioria geradas nos mesmos centros de informação.
É verdade que num
círculo menor de bem informados, os chamados formadores de opinião, tem-se
melhor acesso, justamente pela rapidez e diversificação da oferta de informações
no mundo atual, ao que realmente se passa nos mais diversos quadrantes
do planeta.
Temos assim o contraste
entre o fato de que todo o conhecimento existente em uma infinidade de
periódicos, livros, bibliotecas, centros de pesquisa, universidades está
potencialmente ao alcance de um clique do mouse e a realidade em que a
maioria das pessoas recebe suas informa ções de um número reduzido de
fontes.
É verdade também
que não há antídoto melhor para os riscos de uma globalização da informação
eivada de assimetrias do que cada vez mais informação, mais liberdade
no fluxo de informações, mais descentralização dos pólos geradores de
informação, nunca menos informação. As eventuais imperfeições desse mercado
não serão superadas com mecanismos restritivos - aliás virtualmente impossíveis
devido às novas tecnologias -, mas pelo maior acesso de todos a ambos
os pólos, o emissor e o receptor de informações.
Esse processo já se
verifica, inclusive no Brasil, com o acesso cada vez maior da sociedade
civil a formas de administrar a troca de informações sobre assuntos de
seu interesse, seja pela internet, seja por rádios comunitárias ou outras
formas de comunicação. Não custa lembrar que os sistemas político-econômicos
que restringiram a liberdade de informação por razões político-ideológicas
sufocaram não apenas a sociedade civil e os movimentos dissidentes, mas
sobretudo seu próprio potencial de desenvolvimento científico-tecnológico.
A comunicação atingiu
sem dúvida seu momento de maior domínio do tempo e do espaço. É difícil
imaginar que possa ser ainda mais veloz e ainda mais abrangente sem entrar
no terreno da ficção científica. Por isso mesmo, seu papel é hoje crucial
para todas as esferas da vida humana.
O tempo real passou
a dominar tanto o cálculo econômico como o político. Uma notícia política
ou econômica ou sanitária que surge nos sites das agências de notícias
tem o poder de abalar mercados e as economias de países inteiros, desenvolvidos
ou em desenvolvimento. A volatilidade dos fluxos fi-nanceiros se alimenta
em grande parte da volatilidade das notícias.
Vivemos imersos em
um oceano de informações, bombardeados a cada instante por notícias de
nossa cidade, nosso país, do mundo. Já disse uma vez que quem passar o
dia com os olhos grudados na telinha do computador, não faz mais nada.
Passa a ser espectador da realidade e perde a capacidade de agir, de mudá-la.
Passa a viver do momento e perde a aptidão para planejar o futuro. É preciso,
portanto, estar constantemente bem informado sem tornar-se escravo do
fluxo incessante de notícias.
Mas se aquele que
deve decidir tem que es-tar bem informado sem sucumbir à sedução hipnótica
do tempo real, o mesmo se aplica ao pólo produtor das informações. A rapidez
ver-tiginosa possibilitada pelas modernas tecnolo-gias da informática
e das telecomunicações dá lugar a uma competição desenfreada entre os
veículos. Essa agilida de necessária, entretanto, como se sabe, reduz
o tempo de correto pro-cessamento e reação, aumenta a margem de erro e,
muitas vezes, hipertrofia o ângulo negati-vo. A informação virou produto
com escasso tempo de validade e que nem sempre parece hesitar em pagar
o preço da credibilidade em nome de atrair mais consumidores.
Neste mercado extremamente
competiti-vo, nem sempre as regras mais comezinhas da neutralidade e da
objetividade são segui-das. Pseudonotícias coalhadas de expressões como
"suposto", "sem autenticidade comprovada" e outras similares são publicadas
e republicadas, sem qualquer fato, novo ou velho, que as caucione.
Fascinados pela tecnologia
que abole o tempo e o espaço, não se meditou o suficiente sobre o conteúdo
da informação. Muitas vezes, o público recebe a imagem confusa de um mundo
fragmenta do numa miríade de pequenos fatos, sem que lhe seja ofereci
do um contexto e uma perspectiva temporal que permitam melhor situá-los
e compreendê-los. O presente hipertrofiado pelo metralhar de novas notícias
estimula a falta de memória his-tórica. Figuras da vida pública podem
reinventar-se a cada instante como produto novo, como se a frase do dia,
a sound bite, como dizem os americanos, tivesse o condão de abolircurrículos
e biografias.
O escritor italiano
Italo Calvino propôs como marcas da literatura do século que agora é o
nosso qualidades como leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade.
Dessa lista, dois valores me parecem dever distinguir também a imprensa
em nosso tempo: a rapidez e a exati-dão. É no difícil equilíbrio entre
esses dois obje-tivos, ambos igualmente relevantes, que ela haverá de
encontrar o melhor cumprimento de sua elevada missão.
* Sociólogo e
presidente da República
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