IMAGEM DISTORCIDA

HELAYNE BOAVENTURA
E VALDECI RODRIGUES

BRASÍLIA - Um retrato deformado de si mesma produzido em tons superficiais, é uma das imagens possíveis para descrever a impressão da classe política ao encarar as páginas dos jornais, espelho em que se vê refletida diariamente. Na opinião dos parlamentares brasileiros, a imprensa carrega nas tintas ao reproduzir o pensamento político, por não conseguir conter seu maior pecado: uma especial predileção pela intriga e pela fofoca dos bastidores do poder. O defeito tem a capacidade, eles acusam, de ocultar as decisões concretas que têm influência na vida do cidadão.

Os parlamentares, em meio à crises partidárias sucessivas, cobram uma imprensa analítica, profunda e com interesse em temas concretos, que não se prenda nos aspectos pitorescos do dia-a-dia do Congresso Nacional, como o bate-boca entre adversários. "A fofoca, a intriga, a briga têm um peso imenso na cobertura, que é feita de nós para nós mesmos, os políticos", reclama o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Jutahy Júnior (BA), para quem os veículos de comunicação deixam de investir na especialização dos jornalistas e no aprofundamento dos temas discutidos no Congresso.

A opinião do tucano é uma das raras unanimidades encontradas na Casa, caracterizada pela divergência de posições. Os parlamentares acreditam que a mídia brasileira gasta tempo e esforço ao dar prioridade às picuinhas políticas e menosprezar a discussão dos temas nacionais. "O que é o episódio da briga de Jader (presidente do Senado, Jader Barbalho, do PMDB-PA) com ACM (senador Antonio Carlos Magalhães, PFL-BA) no contexto do funcionamento do Congresso? Um incidente banal que não interessa a todos os brasileiros. Em vez disso, deveríamos discutir temas relevantes", reforça o deputado Ricardo Barros (PPB-PR).

Com outras palavras, é a mesma crítica que faz o líder da oposição no Senado, José Eduardo Dutra (PT-SE). Outro pecado apontado pelo senador petista é a tendência "a considerar como trabalho parlamentar apenas o que acontece no plenário". José Eduardo Dutra indigna-se com a percepção "de que só há trabalho se o plenário está cheio". O senador gostaria que a imprensa mostrasse a atividade das comissões e divulgasse que é função também do parlamento fiscalizar os atos do Poder Executivo. "O Congresso não é linha de montagem. Ficar fazendo leis é coisa de um país que não está pronto", protesta Dutra.

O líder do PT na Câmara, Walter Pinheiro (BA), vai mais longe e desconfia do propósito da imprensa. Para ele, "as matérias refletem a opinião dos controladores, dos proprietários que, em muitos casos, é a própria classe política, principalmente nos pequenos veículos". É um conceito que extrapola a ala xiita do PT. O deputado Luiz Carlos Hauly (PSDB-PR) reforça: "A cobertura não é neutra. Ela tende à posição do dono do jornal". O senador Roberto Requião afirma: "A imprensa reproduz o Diário Oficial, com alguns protestos".

O presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), que por força do cargo preside as sessões conjuntas do Congresso Nacional, dá um conselho aos jornalistas: "Não se apaixonem. Vocês são prestadores de serviços. Têm obrigação de melhor informar. Deixem a paixão apenas para nós, políticos". O senador paraense entende que o distanciamento é imprescindível à busca da imparcialidade na cobertura jornalística. Inclusive ao noticiar a longa briga que trava com seu maior desafeto, o ex-presidente do Senado Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA).

Enaltecendo mais do que criticando, Antonio Carlos Magalhães cita Rui Barbosa ao dizer que "a imprensa tem o dever da verdade". As distorções, acredita ele, serão corrigidas à medida que "houver o aprimoramento da cultura do país".

O gosto pelo denuncismo inconseqüente também é apontado pelos parlamentares como uma das características da imprensa política brasileira, que apresenta, julga e condena ao ostracismo (às vezes irreversível) personalidades que estiverem em sua mira. O comportamento da mídia teria motivações mercadológicas, reforçada pela concorrência agressiva entre os veículos de comunicação.

Nem mesmo entusiastas convictos do jornalismo político como o pefelista Inocêncio Oliveira (PE), líder do partido na Câmara, não esquecem de apontar o defeito em tom professoral: "Denúncia é bom, mas não se deve fazer pré-julgamento. É preciso ter mais claro o sentimento de ouvir todas as partes, porque fica difícil recompor o prejuízo mais tarde". Para o deputado pernambucano, esta é uma das lições primordiais para que a mídia salte em seu conceito, um dos mais altos na Casa: nota oito, em uma escala de dez pontos.

Os parlamentares tecem considerações particulares sobre o funcionamento da mídia e a respeito da eficácia da cobertura política. Muitos acreditam que o excesso de notícias sobre a disputa partidária entre grupos rivais provoca a visão distorcida do funcionamento do Congresso, que trabalharia muito mais (garantem) do que faz crer a mídia, que prefere notícias ruins.

Outros, como o líder do PSB na Câmara, Eduardo Paes (PE), retiram boa parte da culpa da imprensa sobre o problema. Para ele, "é um raciocínio simplista" acusar a imprensa por esquecer temas prioritários. A mídia reflete um movimento do parlamento, avalia o neto de Miguel Arraes. Mas a senadora Maria do Carmo (PFL-SE) é condescendente com os erros dos jornalistas, pois entende que se há a veiculação de notícias distorcidas a culpa "é de quem passa a informação".

As rotineiras denúncias de corrupção contrariam muitos parlamentares. O senador Moreira Mendes (PFL-RO) aponta "um certo exagero nos casos de corrupção" que, no seu entendimento, pode ser por causa ainda "do longo tempo em que a imprensa ficou reprimida". Já o presidente do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), reclama do pouco espaço dedicado aos temas internacionais "quando vivemos na era da globalização".

Enquanto há críticas à onda de denúncias, existe quem enxerga na imprensa um escudo protetor do governo. "Há pensamento único: apoio ao governo. Na mídia, em geral, parece que existe um pacto para proteger Fernando Henrique Cardoso", afirma o senador Sebastião Rocha (PDT-AP). O presidente do PSDB, senador Teotônio Vilela Filho (AL), que obviamente não enxerga esse pacto pró-governo na imprensa, arranja uma desculpa para algumas distorções: "Acho que é por causa da correria, do açodamento". Sobre o espaço dedicado às desavenças políticas, Teotônio afirma: "O leitor gosta quando se destacam assuntos pelo seu sabor picante".