ENTRE A OBRA E O ESPÍRITO

Caçula dos seis filhos de um comerciante libanês, Nelson Tanure saiu de Salvador em 1977, aos 25 anos, para tentar a sorte no Rio. Na bagagem, um curso superior de Administração de Empresas, fluência em inglês e francês e a intenção de ser representante comercial de empresas estrangeiras. Vinte e quatro anos depois, o empresário não mudou em alguns aspectos básicos: continua sendo introspectivo, tímido e apegado à família.

Já na maturidade, Tanure incorporou um traço espiritual à sua personalidade. Católico praticante ("sem ser carola", diz), não só vai à missa com a família todos os domingos como se tornou um erudito em Cristianismo. Durante um ano (que ele chama de "sabático") estudou Filosofia e História cristãs na Universidade Columbia, em Nova Iorque, onde tem casa e filhos estudando. "É possível que a tarefa de reestruturar e consolidar o Jornal do Brasil seja a última da minha vida de empresário", diz Tanure, que pretende se dedicar totalmente à "vida contemplativa" antes de completar 60 anos.

Até lá, ele avalia que terá trabalho pesado pela frente. Pesado mas recompensador. "Não me permito nem imaginar que a operação de reerguimento do JB não seja bem-sucedida", afirma. Nos últimos meses, sempre que ia para sua casa em Petrópolis nos fins de semana, Tanure também levava pilhas de estudos e documentos a respeito do jornal, para esmiuçá-los.

Para justificar sua opção em investir em imprensa, Tanure cita uma frase do filósofo alemão Friederich Nietzsche: "Lá, onde mora o perigo, também mora a salvação." Em seguida, adapta o adágio para o mundo empresarial: "Onde estão os problemas é que estão as grandes chances", detalha. Para o empresário, as firmas tradicionais detêm algo mais que o seu valor material. "Elas têm ativos intangíveis, valiosíssimos", diz. "A tradição do JB, por exemplo, tem um valor inestimável."

Tanure começou sua vida empresarial adquirindo uma companhia de equipamentos de petróleo, a Sequip, em fins da década de 70. Nos anos 80, comprou a Sade, de equipamentos industriais. No governo Collor, foram publicadas reportagens sustentando que, por ser amiga de Tanure, a então ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, teria obrigado fundos de pensão a investirem na Sade.

"Eu fui a Zélia pedir que o governo, de quem eu era fornecedor e credor, me pagasse o que devia. Ela disse que isso seria impossível, mas que iria me ajudar, através de alguns fundos, que, aliás, já eram sócios da companhia", conta Tanure. "O governo me devia R$ 20 milhões e os fundos só entraram com R$ 9 milhões, o que, obviamente, não resolveu o problema."

Mais tarde, Nelson Tanure investiu no setor naval, formando a empresa Indústria Verolme Ishibrás, IVI, que chegou a construir três unidades de produção de petróleo e depois as fechou. "O setor ficou inviável por culpa do governo, que decidiu fazer encomendas na Ásia, e além disso mantém cargas tributária e previdenciária absurdas. Já tive inúmeras vitórias e derrotas na minha vida, possivelmente até mais sofrimento, o que é ótimo, pois daí se tira a seiva da vida, que é a sabedoria. Aliás, o triunfo e o fracasso são dois impostores", diz Tanure.

Ele diz que decidiu fechar a IVI ao perceber que as promessas de ajuda do governo ao setor "eram pura ilusão". O empresário demitiu e indenizou cerca de 11 mil operários.

Casado, com três filhas e um filho, Tanure mora na Gávea. Sua maior diversão é a música. Ele é dono de uma das maiores coleções de clássicos e ópera do Brasil - parte formada pelo acervo do ex-ministro Mário Henrique Simonsen. Ele ouve pelo menos uma hora de música erudita por dia. Seus compositores preferidos são Wagner e Beethoven. Entre os escritores o seu favorito é Shakespeare.

Seu maior ídolo, contudo, é espiritual, não humano. "A Igreja é a maior e mais espetacular instituição do mundo ocidental, e Jesus Cristo é o grande nome desta civilização: foi o homem que venceu a morte", diz.