 |
|

-
E como ficam os credores da antiga empresa, a JB S/A?
- A dívida real, verdadeira,
do antigo Jornal do Brasil, é relativamente proporcional
ao seu patrimônio. O que ocorre é que a maior parte dessa dívida é composta
de débitos fiscais e previdenciários ou a bancos, hoje sob regime de intervenção
do Banco Central. Essas dívidas têm sua origem em alguns empréstimos e
recolhimentos não efetuados durante o período de crise de caixa da empresa.
O maior problema é que essas dívidas foram infladas de maneira estrondosa
e espúria, através de autos de infração sem consistência, lavrados de
maneira irresponsável, e, nos bancos, inflados com taxas de juros irresponsáveis,
multas astronômicas, juros sobre multas, etc. Eu, por exemplo, sou sócio
da IVI, empresa que tem uma dívida de 30 milhões com a Previdência, e
ela elevou essa dívida com essa cascata de milhões e juros e outros para
mais de 200 milhões. Isso ocorre com a grande maioria das empresas brasileiras.
Ainda bem que o governo, num espasmo de racionalidade, criou o Refis,
que é um programa sério e pode equacionar esse problema.
- Na época do
fechamento do negócio, houve críticas à estrutura jurídica do contrato
que criou a Companhia Brasileira de Multimídia. A nova empresa está bem
montada, juridicamente?
- As críticas foram
feitas por pessoas que sequer leram os contratos. Eles deram palpites
sem conhecer os fatos. Pior: sem ter coragem de fazer os ataques publicamente,
pois assim se saberia quais interesses eles estariam representando, alguns
dos críticos se esconderam sob o manto do anonimato, contribuindo para
a mediocridade brasileira. O nosso projeto foi elaborado por alguns dos
maiores juristas brasileiros. É uma estrutura perfeita, à prova de qualquer
eventual ação predatória administrativa ou judicial.
- Tem receio da
competição da Globo?
- De maneira alguma.
Há lugar de sobra no Rio de Janeiro para o Jornal do Brasil e para
O Globo. Uma sociedade complexa e multifacetada comporta dois e
até mais jornais, que disputem os leitores de maneira leal e honesta.
A competição é condição necessária para que os jornais se aprimorem. Quem
lucra com a disputa limpa entre empresas de comunicação é a sociedade,
os cidadãos, que podem dispor de fontes de informação diferentes. O monopólio
na imprensa prejudica todos.
- O Jornal
do Brasil seguirá uma orientação política?
- O jornal, me parece,
tem que defender a democracia, a livre iniciativa, os direitos humanos,
o bem-estar do povo brasileiro. Esses princípios gerais orientarão o JB.
Não acho que o jornal precise de uma plataforma política detalhada. Essa
plataforma poderia ser confundida com a de algum partido ou grupo político.
Acredito que o jornal deva ser independente em relação aos partidos e
governos. Inclusive para poder criticá-los ou aplaudi-los.
- Como cidadão,
como o senhor se posiciona politicamente?
- Considero-me um
nacionalista. Acredito num nacionalismo moderno, numa brasilidade inteligente.
Estamos assistindo a uma desnacionalização irresponsável da economia brasileira.
A privatização e a abertura do mercado brasileiro foram feitas sem controle,
deixando os interesses nacionais em segundo plano. Nossos empresários
ficaram expostos a uma competição absolutamente desigual, que nunca tinham
experimentado. Na última década, os estrangeiros trabalharam com taxas
de juros, em média, dez vezes menor que as nossas. Isso sem falar na carga
tributária brasileira, que é inacreditavelmente alta. Deixamos de ser
um país exportador, gerador de bilhões de dólares de superávit, para viver
ao sabor do que os especuladores de Wall Street pensam sobre nós.
- O senhor é contra
a privatização?
- Gostaria de saber
quais os grupos privados brasileiros que se tornaram multinacionais e
foram para o exterior, já que o processo deveria ser uma via de mão dupla.
Em compensação, muitos estrangeiros, que no fundo são grandes especuladores
de outros países, vieram para o Brasil comprar estatais brasileiras. Eu
me pergunto qual foi o agregado tecnológico que essas companhias trouxeram,
por exemplo, no ramo das telecomunicações. Empresas européias de telecomunicação,
verdadeiros mamutes estatais em seus países, agem no Brasil como bem entendem.
Enquanto isso, os grupos nacionais que teriam condições tecnológicas e
gerenciais para assumir as mesmas tarefas não receberam nenhuma proteção.
Veja o que ocorreu na área bancária. Houve a desnacionalização de ícones
brasileiros, como o Banespa, que hoje pertence a um banco espanhol. Casas
bancárias foram entregues a grupos estrangeiros dos quais nunca ouvimos
falar. Até banco de Xangai tem no Brasil. Ainda bem que existem homens
como Lázaro Brandão, que defendem o empresariado brasileiro, este sim,
verdadeiro baluarte do desenvolvimento.
- O senhor, então,
defende a estatização?
- Não. Acho apenas
que deve haver regras mais estritas, que protejam os interesses nacionais.
O Estado deve exercer o seu poder regulador de modo eficaz, no quadro
de uma política nacional de desenvolvimento bem definida. Vejo o Estado
brasileiro como um ente pusilânime, repleto de gente despreparada, bacharéis
em orelha de livro, sem saber para onde ir, despreparados para exercer
suas responsabilidades. E a sua responsabilidade primordial é a de proporcionar
o bem-estar social. Se não houver um movimento econômico social, em menos
de 10 anos, toda, repito, toda atividade econômica no Brasil será de propriedade
estrangeira.
- Mas o Estado
não protegeu demais os empresários, acobertando a sua ineficiência?
- Não acredito nisso.
Dou um depoimento pessoal. Na poucas vezes em que lidei com o Estado foi
para cobrar o que ele me devia. Ou então para pedir apoio legítimo, como
ocorreu na época em que atuei na indústria naval. Esse apoio foi sempre
prometido, alardeado, mas nunca implementado. A experiência mostra que
a maioria dos setores ou empresas que fracassaram no Brasil teve, na sua
derrocada, a presença do Estado. E, ao contrário, todos os casos empresariais
de sucesso têm como característica comum a ausência do Estado.
|