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M. F. do JB
MARCOS
SÁ CORRÊA
O
que veio primeiro: M.F. ou JB? Com os nomes grafados por extenso,
não há dúvida: aos 110 anos, o Jornal do Brasil está anunciando
uma nova fase e seu diretor, Manoel Francisco do Nascimento Brito, se
retirou aos 78 anos das funções administrativas. Mas com as siglas é diferente.
Como os suplementos que se encartam em edições regulares, em mais de meio
século de história do jornalismo brasileiro, elas não circularam separadamente.
Fora das páginas
do JB, M.F. sequer existia. Era Dr. Brito, para os íntimos. As
iniciais só valiam no cabeçalho, onde saíram diariamente durante 52 anos
enquanto ele ia trocando de título - superintendente, diretor, diretor-executivo
ou presidente - sem com isso mudar de posto. Às vezes, aquelas letras
pontuadas, seguidas do sobrenome, também assinavam esporadicamente reportagens,
onde quase sempre era audível o ronco dos editoriais. Em dezembro de 1967,
por exemplo, sete anos antes da derrota dos Estados Unidos, ele trouxe
de uma viagem ao Sudeste da Ásia a certeza de que "o americano atualmente
no Vietnam está consciente de que a sua luta não tem dia e hora marcados
para terminar. Já se informou do óbvio: está ganhando, sabe que a ganhará,
mas não ainda quando poderá ganhá-la. Porque esta vitória, que interessa
a todos nós, não pode ser somente a mais imediata, apenas uma vitória
militar". A previsão falhou. Mas deixou fixado princípio de que, tal como
o JB, M.F. não tem papas na língua. Discorda das unanimidades vigentes
com toda a naturalidade. Tanto que, para ele, os países que não entraram
no clube dos ricos ainda se chamam "subdesenvolvidos".
Em muita coisa as
quatro letras se confundiam. O jornal e seu chefe eram bons de briga,
tinham humor, funcionavam melhor nas crises de antigovernismo e eram tão
bem paginados que, ao sair às ruas do Rio de Janeiro 40 anos atrás, causavam
espanto pelo tamanho de sua elegância. Diante do JB, os outros
jornais se sentiam feios e antiquados. E ficou na memória de quem passou
pela redação daquele tempo o dia em que o diretor chegou da rua se queixado
da ostensiva curiosidade que o cercava. Vinha de um almoço no Itamarati.
Cruzara a pé o velho Centro da cidade, descendo a Avenida Marechal Floriano
até a Rio Branco, onde ficava a antiga sede do jornal. Passara pelos sobrados
que na época dominavam o varejo carioca de artigos populares e por uma
delegacia que ainda expunha na calçada os batedores de carteira, para
reconhecimento público. Tinha 1,89m de altura e o porte de quem nadava
desde os 13 anos, lutava jiu-jítsu com o pioneiro Hélio Gracie duas vezes
por semana e todas as manhãs fazia ginástica em casa com um personal
trainer muito antes que o personagem figurasse na agenda da grã-finagem.
Trajava um daqueles ternos de corte tão preciso que até hoje lhe permitem
passar horas sentado sem afrouxar um botão e emendar o expediente com
um jantar de cerimônia sem trocar roupa, sinal de boa educação e bom alfaiate.
"Claro que só podia chamar a atenção. O Sr. parece um Galaxie", comentou
o jornalista Pedro Gomes. O Galaxie era então o maior e mais luxuoso automóvel
fabricado no Brasil.
A não ser pela presença
ininterrupta no cabeçalho, M.F. apareceu poucas vezes no jornal que comandava.
Há poucas palavras sobre as suas cinco décadas nos arquivos da casa. E
até para aposentá-lo, meses atrás, gastou-se pouca tinta. Ele encerrou
a carreira com uma nota de 27 linhas. Para transformá-lo em figura pública,
bastava o fato de ele e o JB serem feitos à imagem e semelhança
um do outro. Quando assumiu a direção, o Jornal do Brasil passava
dos 58 anos de publicação contínua. Mas só com ele passou a ser conhecido
pela abreviatura. Antes, faltava-lhe popularidade para tanto. O JB
surgiu na era M.F., dividindo seus 110 anos em duas metades perfeitamente
desiguais.
Cronologicamente,
a primeira metade é a mais longa. Estréia em 1891 com um manifesto monarquista
três anos depois da Proclamação da República e acaba no governo Juscelino
Kubitschek. A segunda, mais curta. Começa no fim da década de 50 com a
mutação gráfica que, a princípio entrincheirada na seção de esportes para
não assustar os leitores, acabou tomando conta do JB inteiro. E
não só dele. Sua receita caiu no gosto da concorrência e por isso essa
etapa de sua história nunca terminou. Agora mesmo pode estar metamorfoseando
por imitação um diário qualquer no interior do país. Antes de transformar-se,
portanto, o Jornal do Brasil era muito parecido com todos os jornais
brasileiros. Depois, todos os jornais brasileiros se parecem um pouco
com o Jornal do Brasil.
Os 52 anos da dupla
são longos, quase um reinado. Na imprensa diária, dão para mais de 19
mil manchetes. No Brasil, cobrem quatro constituições, dois regimes civis,
15 presidentes da República - ou 17 governos, contando a junta de 1969
e o bis de Fernando Henrique Cardoso no Palácio do Planalto. Vendo-os
passar do alto de suas páginas, o diretor aprendeu que "neste país os
poderosos sempre acham que podem tudo, que são eternos". Nada como a transitoriedade
alheia. Em agosto de 1954, levado por Aníbal Freire, o ex-ministro do
STF que dirigia o Jornal do Brasil na ocasião, M.F. pisou pela
primeira vez num palácio. Tinha 32 anos, feitos naquela semana. Iam visitar
Getúlio Vargas num Catete cercado de boatos por todos os lados, exatamente
na véspera do suicídio do presidente. Lá, o ex-ministro entrou no gabinete.
Ele ficou na ante-sala e, à falta de interlocutor melhor, puxou conversa
com o sentinela: "A situação está preta, hein?" O soldado não regateou:
"É hoje, doutor." Foi sua estréia na política. Trinta e tantos anos depois,
encarava os poderosos com olho de ex-patrão. No governo José Sarney, reconhecia
na Presidência da República o antigo correspondente do Jornal do Brasil
em São Luís do Maranhão. No governo Fernando Collor, tinha na Presidência
um ex-estagiário na sucursal de Brasília.
Acostumou-se a ver
nas autoridades precisamente o que elas querem esconder. Logo depois da
posse de Collor, a ministra Zélia Cardoso de Mello, uniformizada como
czarina da Economia, visitou o jornal para explicar aos editores o confisco
da poupança. Conversa seriíssima, a não ser pelos minutos que o diretor
da casa interrompeu a reunião para cumprimentá-la, falou muito, ouviu
pouco e saiu sem uma informação econômica. Mais tarde, perguntou pelos
resultados do encontro. Foi bombardeado por comentários técnicos e ofereceu
aos jornalistas um fato decisivo: "Vocês viram como ela se senta? Essa
moça vai acabar se metendo num escândalo." Cruzando as pernas, a ministra
lhe revelara sem querer o futuro. Cairia por quebra de decoro com o ministro
da Justiça Bernardo Cabral.
Lastreava a independência
do jornal num princípio simples: "No Brasil, as pessoas acham que podem
ligar para dono de jornal pedindo para não dar uma notícia. Isso é chato,
porque jornal vive de notícia." Os métodos é que podiam ser complicados.
Em 1967, o jornalista Walter Fontoura publicou na coluna Informe JB
uma nota que irritou o deputado Chagas Freitas, proprietário de O Dia.
Dizia que, em seu jornal, ele noticiava como seus os projetos apresentados
pelo deputado Raimundo Padilha. Fontoura foi chamado ao quinto andar para
uma advertência: "Chagas é como se fosse meu irmão, Walter. Ele me telefonou,
reclamando de você. E eu disse que iria demiti-lo", confessou-lhe. O que
poderia fazer o funcionário numa situação dessas? "Nada", explicou-lhe
M.F. "Se ele um dia perguntar, diga que foi demitido e recontratado imediatamente."
No governo militar,
sob o AI-5, o Jornal do Brasil publicou a lista de presos políticos
que o Brasil trocaria pelo embaixador da Alemanha, seqüestrado no Rio
de Janeiro. O diretor foi chamado à Polícia Federal. "Essas audiências
eram sempre no fim da tarde, para parecer mais sinistras", ele conta.
"Mas a conversa, em si, até que foi amável. Mas ele queria saber quem
informara o JB. Respondi que isso era segredo profissional. Nesse
caso, eu teria que dormir no xadrez. Só tenho medo de rato e barata",
retruquei. Ele riu: "É o que mais temos aqui." Às 11 da noite, mandou-me
embora. Do fundo do corredor, eu me despedi: "Agora vou lhe contar quem
me deu a informação, só para mostrar como são as coisas." Deu o nome do
ministro da Justiça.
Para quem hoje folheia
sua coleção, a primeira metade da história do Jornal do Brasil dá
a impressão de que passou depressa. Nascido no governo Deodoro da Fonseca,
ele mudou de século sem mudar de cara. Passou por duas guerras mundiais
e quatro revoluções no Brasil sem que a agitação externa deixasse marcas
profundas em sua fachada. Em sua primeira página, uma coluna de notícias
chamada O Dia de Hontem virou seção de classificados praticamente
sem alterações de forma. O tempo tornou-o cada vez mais plácido. Com Joaquim
Nabuco, era monarquista quando os republicanos chegaram ao poder. Com
Rui Barbosa, civilista numa república fardada. Com Ernesto Pereira Carneiro,
que ganhou do Vaticano o título de conde ajudando o Rio de Janeiro a enfrentar
a gripe espanhola em 1918, tornou-se católico. Enfim, o tesoureiro José
Pires do Rio, nos idos de 1930, converteu-o em "boletim de anúncios",
o que lhe valeu a alcunha de "jornal das cozinheiras". Foi esse o Jornal
do Brasil que há mais de 40 anos virou de cabeça para baixo na "reforma"
- reforma entre aspas por ser a mãe de todas as reformas que desde então
agitam periodicamente a imprensa brasileira. Não se tratou propriamente
de um projeto, mas de experiências feitas "a duras penas e com grande
relutância", segundo o diretor. O fato é que em 1959 os classificados
ainda tomavam todo o lado esquerdo de sua primeira página. E em 1963 o
assassinato do presidente John Kennedy teve uma edição que não faria feio
se saísse esta manhã de suas máquinas. Foi assim que o Jornal do Brasil,
sexagenário, virou JB.
O novo modelo teve
muitos autores e paternidade discutida. Foi gerada na redação do Jornal
do Brasil, que na Avenida Rio Branco ficava dois andares abaixo da
administração. "Mas eu descia toda hora para ver o que estavam fazendo",
diz o diretor. A reforma puxou ao pedigree literário do editor-chefe
Odilo Costa, filho e aos traços do escultor Amílcar de Castro. Mas uma
coincidência não se discute. Ela começou assim que M.F. chegou dos Estados
Unidos, depois de um curso na Universidade de Columbia para editores.
Voltou disposto a fazer um produto diferente. Ou seja, igual aos americanos.
Acabou dono do primeiro jornal tipicamente brasileiro.
Na época, ele se
considerava aprendiz de jornalista. Vinha de outras ambições profissionais.
Fizera dois anos de Engenharia, como o pai, que trabalhou no Nordeste
em obras contra as secas. Depois, a Faculdade Nacional de Direito, de
olho na diplomacia, como seus dois tios. Todos fugindo do comércio. Seu
avô foi dono da Casa Manoel Francisco Brito & Cia., grande atacadista
na Rua do Acre. Ele, antes de ser advogado, diplomou-se como piloto. Ao
alistar-se no CPOR, só achou vaga na Aeronáutica. Aprendeu a voar no Brasil
e, com o esforço de guerra, treinou para piloto militar nos Estados Unidos.
Passou quatro anos como instrutor, levantando às cinco da manhã para servir
na base do Galeão. A essa hora, esperando o transporte da Aeronáutica,
só via passar pela sua porta na Praia do Flamengo o carro oficial do marechal
Eurico Gaspar Dutra, fanático madrugador, a caminho do Ministério da Guerra.
Em 1946, formou-se em Direito. Mas nunca perdeu as "manias" de avião e
política externa. Como diretor do Jornal do Brasil, mais de um
governo tentou agradá-lo oferecendo-lhe missões diplomáticas. Em 1977,
o ministro do Exército Sylvio Frota, secreto candidato à Presidência no
governo Ernesto Geisel, chegou a convidá-lo para ministro das Relações
Exteriores. Mas ele escapou da vida pública que, fora o Itamarati, só
o tentou uma vez. No começo dos anos 60, ensaiou uma candidatura a deputado
federal pelo PTB. No primeiro comício, puseram-lhe nos braços o filho
de um eleitor e o menino molhou sua roupa. Ali mesmo ele desistiu da política.
No fim da carreira, resumiria toda essa experiência num axioma pessoal:
"Jornal não é para fazer acordo."
Entrou no mercado
editorial por acaso. Em 1949, trabalhando como advogado no escritório
de João Dunshee de Abranches, foi chamado pelo sogro para organizar a
Rádio Jornal do Brasil. Tratava-se do Conde Pereira Carneiro, que havia
comprado a marca quando a Primeira Guerra Mundial, com a explosão dos
preços do papel, quebrou a empresa. Conta que aceitou a tarefa por honra
da firma: "Resisti durante quatro meses, alegando que não entendia nada
daquilo. Mas, quando entrei, entrei para valer. Mudei a rádio de alto
a baixo." Cinco anos depois, com a morte do conde, passou a mandar no
jornal. "Não tinha experiência, mas ficava na oficina até três horas da
manhã", diz ele. Pegou "uma circulação de seis mil exemplares por dia
e, antes mesmo da reforma, ela batia em 60 mil exemplares". Naquele ano,
comprou máquinas novas, pagando à vista, e atropelou velhos dogmas administrativos
da casa: "O jornal tinha funcionado durante anos com um chefe da circulação
que tinha horror a gastar papel. Acontecesse o que acontecesse, mantinha
o consumo entre três e cinco toneladas por mês. Ou seja, o Jornal do
Brasil não vendia mais simplesmente porque não imprimia."
Duas décadas mais
tarde, comandava o maior jornal do Rio de Janeiro, com tiragem de 150
mil exemplares nos dias úteis e 230 mil nos domingos, quando teve um derrame
durante um campeonato de pesca na Venezuela. A puxar para o barco um marlin
- "de 350 quilos", afirma -, sentiu o braço direito cair de repente. Havia
perdido para sempre os movimentos desse lado do corpo. Começou em alto-mar
uma luta de 22 anos com a doença. A lancha levou quatro horas para largá-lo
no cais, "no chão frio". O socorro médico demorou a chegar e veio na forma
de uma internação de seis dias num hospital público de Maracaibo. Nos
oito meses seguintes, ele duelou com as seqüelas em clínicas americanas.
Emendou quatro operações, perseguindo os efeitos dos coágulos pelo resto
do organismo. Nas vésperas da última cirurgia, seu filho Manoel Francisco
viu-o no Hospital Rusk Memorial, de Nova Iorque. Estava com 71 quilos.
Isso, num homem daquela compleição, quer dizer pele e osso. Ele não esperou
pela reação do filho. "Virei uma manjuba", anunciou-lhe, levantando o
dedo mínimo da mão esquerda para reforçar a dicção emperrada. Dito isso,
caiu na gargalhada.
Quarenta e oito horas
depois da operação nos pulmões, ainda na UTI, pediu para o tirarem de
perto de um paciente que, com queimadura generalizada, balbuciava sem
parar que estava nas últimas: "Ele está morrendo e eu não." No quarto,
aprendeu sozinho a esticar o braço até a mesa de cabeceira e catar os
chocolates que as pessoas deixavam no hospital, ao visitá-lo. Desembrulhava
bombons com a mão esquerda que, dali para a frente, serviria para tudo
- escrever, atalhar o gesto das pessoas que, ao cumprimentá-lo, espichavam
a mão para o lado paralítico, dirigir automóvel. Só ele sabe o que isso
lhe custou: "Um dia, a fisioterapeuta me chamou para um passeio. Lá fui
eu por Nova Iorque, andando torto, até que ele fez sinal para um ônibus
e mandou que eu subisse sozinho. Levei uns quatro minutos para vencer
a escada. A bordo, duas velhinhas se levantaram para me ceder o lugar.
Mas no ponto seguinte ela parou o ônibus de novo e me disse para descer.
Foram mais quatro minutos com os passageiros todos esperando."
Na alta, a fisioterapeuta
americana deu-lhe um livro de ginástica facial. Vinte e dois anos depois,
ele continua fazendo a série inteira de exercícios antes de dormir. Acorda
às sete da manhã para duas horas regulares de fisioterapia, cinco vezes
por semana. Ultimamente, anda empenhado num programa de reeducação neurológica.
Em compensação, quando vai a festas, dança. Voltou ao Brasil em cadeira
de rodas. Três dias depois, de pé, reassumia o Jornal do Brasil,
que não era mais o mesmo. Em pouco tempo perderia a condessa Pereira
Carneiro e a saúde financeira. Lamenta a morte da sogra ainda hoje: "Era
uma mulher inteligente. Nunca tivemos um desentendimento grave. Quando
discordávamos em alguma coisa, dizia: ‘Faça o que quiser, mas a responsabilidade
é sua.’ Jornal tem que ser assim. Onde todos mandam, ninguém manda."
Nesses 52 anos, M.F.
e o JB cresceram e adoeceram juntos, sem nunca se entregarem inteiramente
às administrações profissionais convocadas para resolver seus problemas
financeiros. Até nisso eles continuaram parecidos. Transformaram a velha
valentia em briga diária pela sobrevivência. Com a crise, a empresa ficou
atrasada em muita coisa. Mas, exatamente pelo anacronismo, manteve pelo
menos um oásis no primeiro plano da imprensa brasileira: uma redação à
antiga, onde os jornalistas não fazem de conta que são executivos. M.F.
sempre disse que preferia jornalistas a executivos.
Marcos Sá Corrêa,
diretor de Redação do Jornal do Brasil nos anos 80, é editor da
revista eletrônica Notícia e Opinião (www.no.com.br).
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