A RESPONSBILIDADE DOS PROFISSIONAIS

Augusto Nunes, diretor de redação da revista Época, vê risco de exagero nas denúncias, que encontrou estímulo no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. "E isso já faz 10 anos. Desde aquele momento, a imprensa se considera no dever de divulgar um escândalo por dia. E isso não é necessário", afirmou. Segundo Augusto Nunes, o jornalista não deve se preocupar em substituir o delegado, o detetive e o promotor ao mesmo tempo. "É a síndrome do Clark Kent, do super-herói, que por azar nosso era jornalista", disse, referindo-se ao Super-Homem dos quadrinhos.

Mas Augusto Nunes crê num futuro menos turbulento após a experiência de várias eleições diretas. "Passamos por um período que foi uma panela de pressão. A tampa estourou e começou a pipocar denúncia. Agora tem que se voltar à normalidade. Nas próximas eleições, temos de começar a examinar os candidatos antes. O livro do próprio Mário Sergio Conti (Notícias do Planalto) ensina a mostrar como são as pessoas antes da eleição."

Para o jurista Ives Gandra Martins, o poder de destruir da imprensa é ilimitado. "Nem mesmo os poderes constituídos têm a mesma força. E por ser o pulmão da sociedade e poder desvendar o que o povo não tem acesso, a imprensa deveria ter mais responsabilidade."

Apesar dos contratempos, Ives Gandra vê pontos positivos. Para o jurista, sem a imprensa a democracia fica pela metade. "O Collor caiu não pela vontade dos deputados, mas pelas denúncias", afirmou Ives Gandra, recordando a época em que, segundo ele, a imprensa chegou a ser oficialista. "Mas hoje reflete a vontade da sociedade. Alguns jornais são mais de esquerda, outros gostam mais do presidente e há os que são mais agressivos. Mas todos divulgam a notícia", disse o jurista, que abre uma exceção à TV. "Nela as posições são mais visíveis, pois a informação é mais curta e as preferências aparecem mais. A notícia tem pouca profundidade."

O diretor de redação do jornal O Globo, Merval Pereira, considera o saldo positivo e a imprensa brasileira muito boa, uma das melhores do mundo. "É criativa, aguerrida. Casos de denuncismo vazio são cada vez mais raros. Temos conseguido fazer grandes reportagens investigativas e até refazer a história recente do Brasil, dando grande contribuição ao avanço da democracia."

Mas Merval faz uma ressalva. "Erramos ao achar que falar de coisas boas do governo é ser governista, que para ser independente tem de ser contra. É um erro de ótica brutal, uma distorção do tempo da ditadura."

Separar a opinião da crítica é essencial, segundo o jornalista. "O Globo apóia o governo Fernando Henrique, mas não se furta de criticar o governo, em apontar erros. Essa é a posição madura que a imprensa deve ter", afirmou Merval, lembrando que cada caso é um caso. "A notícia sai normalmente, a crítica ou elogio, em editorial. Não se pode ser a favor só porque é MST, PV, uma ONG."

Discordar das investidas do MST à fazenda de Fernando Henrique, Paulo Tarso Flecha de Lima ou aos prédios públicos, segundo Merval Pereira, não significa tratá-lo mal. "O MST tem que arcar com as conseqüências de seus atos."

Sandro Vaia, diretor de redação do Estado de S.Paulo, considera que cada veículo segue suas tradições. "Se por um período é mais ou menos favorável ao governo, é por coincidência. Em geral, não muda suas posições políticas por ser simpático ou não", afirmou Sandro, para quem o papel da imprensa sempre foi o de informar e formar a opinião pública. "Porém, muitas vezes há um jogo de marketing, como as publicações de gravações que nada acrescentam."

O jornalista cita a postura da imprensa após o fim da ditadura, que teria começado a usar a linguagem de forma leviana, divulgando denúncias não comprovadas. "Quis se sentir sem as algemas, e isso não ajudou em nada a enriquecer a democracia. Vejam os exemplos da Escola-Base e do Alceni Guerra (ministro da Saúde durante o governo de Fernando Collor), cuja vida foi quase destruída", afirmou.

Hélio Campos Mello, diretor de redação da revista Isto É, acha que a imprensa sempre deve ter o olhar crítico e equilibrado para o poder. Considera a imprensa generosa com o governo, mas que já foi mais. De uns tempos para cá, teria mudado. "A partir da metade do segundo mandato do atual presidente, começou a olhar de forma mais crítica. Se você pegar hoje o ACM, por exemplo, diz que posa de oposição, mas mantém simpatia geral da grande imprensa."

O cientista político Bolívar Lamounier concorda com Hélio Campos Mello. "O desempenho da imprensa tem sido bastante equilibrado. Reconhece e dá devido crédito quando o governo realiza obras importantes, o que não a impede de fazer cobranças quando necessário."

De acordo com a editora executiva da Folha de S.Paulo, Eleonora Lucena, essas cobranças são absolutamente necessárias. "Denúncias têm de ser apuradas, confrontadas com os diversos interesses em questão. Se comprovadas, devem ser publicadas. A sociedade democrática amadurece com a transparência. A imprensa pode ajudar nesse processo."

Porém, o "criticismo exacerbado" é, segundo o professor emérito de Ciência Política da Universidade de Minas Gerais, Fábio Wanderley Reis, o maior pecado da imprensa brasileira. "Isso se dá principalmente no colunismo. Às vezes você lê determinado colunista e percebe claramente que há um engajamento contra ou a favor do governo", disse Fábio, que no entanto avalia como positivo o papel dos meios de comunicação. "Fazem um esforço de imparcialidade, que varia de um para a outro. Alguns mais, outros menos. Mas em termos gerais são independentes e têm um bom conteúdo de informaçã÷o."

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia, professor José Vicente Tavares dos Santos, a imprensa é submissa não apenas ao poder político, mas também ao econômico e até cultural. "Com isso, transforma-se em correio de transmissão dos poderes."

José Vicente lembra o crescimento das assessorias de imprensa em grandes empresas, governos e partidos políticos, e faz um alerta. "Quem lê de quatro a cinco jornais por dia, como eu, nota que uma determinada notícia é igual em todos os periódicos. É a publicação simultânea do mesmo release com pequenas alterações. O que mostra a submissão do jornalista às assessorias e reflete falta de formação intelectual e de busca de informação diferenciada."

A mania do novo, do extraordinário, que dá capa e manchete, também é criticada por José Vicente, diretor do Instituto de Filosofia e Ciências em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. "Com exceção do Jornal do Brasil, da Folha de S. Paulo e alguns poucos, os jornais vivem de maneira geral do extraordinário, e com isso os profissionais não se preocupam com a informação."

O ex-presidente da Fenaj, coordenador do jornalismo na TV Bandeirantes em Minas Gerais e membro da equipe do Observatório Econômico, Luiz Carlos Bernardes, detecta grande influência do jornalismo feito pelo diário americano USA Today na imprensa brasileira. "÷Os espaços de análise diminuíram e os jornais estão com matérias mais sucintas. Uma análise isenta para o leitor é muito importante. O cidadão é agora bombardeado por um volume muito grande de informação e precisa de uma interpretação que abra cenários para ele."