YAN MICHALSKI

O crítico teatral, ao apreciar Toda Nudez Será Castigada, que o Teatro Serrador exibia em julho de 1965, aborda o que, no seu entender, constituíam as duas faces de Nelson Rodrigues: um autor "pueril" na temática, mas ao mesmo tempo se revelando "um grande homem de teatro". Eis a primeira de duas críticas que Michalski fez sobre a peça.


O PSICODRAMA DE NELSON (I - 02/07/1965)

"Com Toda Nudez Será Castigada, Nelson Rodrigues ingressa resolutamente na sua fase de psicodrama. O psicodrama é um recurso usado pelos psiquiatras como tratamento terapêutico de doenças mentais através de exercícios dramáticos. A peça ora em exibição no Serrador põe em cena exclusivamente personagens cujas obsessões, principalmente sexuais, os colocam nitidamente fora dos limites da normalidade, por mais elásticos que estes limites possam ser. Uma obra tão completamente voltada para fenômenos patológicos impões, de saída, uma pergunta cuja resposta caberia mais a um psiquiatra do que a um crítico de teatro: tratar-se-á do produto de uma mente mórbida, que sente a necessidade de mostrar no palco os problemas reprimidos de sua libido para aliviar as suas tensões íntimas, através desse processo de análise sui generis? Ou tratar-se-á, pelo contrário, da obra de um escritor preocupado, à sua maneira, com os seus semelhantes, que visa a provocar um fenômeno de catarse nos espectadores?

De qualquer modo, parece-nos que as características tão nitidamente mórbidas e anormais da totalidade dos personagens diminuem consideravelmente o alcance humano da obra. É verdade que alguns dos maiores escritores dramáticos da literatura universal deixaram obras imortais protagonizadas por personagens monstruosos e claramente patológicos; mas estes personagens eram mostrados em oposição a outros, mais sadios e normais, e esta oposição servia freqüentemente de ponto de partida para a estruturação do próprio conflito central do drama. Na peça de Nelson Rodrigues, toda a humanidade é composta de psicopatas e obcecados; as motivações que explicam os seus atos e os conflitos que envolvem os seus destinos encontram, conseqüentemente, uma reação de curiosidade num espectador médio - como acontece habitualmente quando nos encontramos diante de um espécime raro, diferente - muito mais do que um autêntico interesse humano provocado pela identificação, pela comunicação.

Outro fator que diminui o interesse da obra de Nelson Rodrigues é a gratuidade de muitas das suas partes. O autor parece estar essencialmente movido por um desafio lançado a si mesmo: "Até onde saberei ir na minha tarefa de surpreender o burguês com novos detalhes escabrosos?" Para corresponder a este desafio, ele não hesita em desprezar, por momentos, a coerência dos personagens, a lógica do desenvolvimento da ação, e outros elementos da mesma importância. É claro que não nos referimos propriamente aos palavrões, perfeitamente legítimos quando empregados como a expressão natural dos sentimentos de um personagem, mas sim aos detalhes propositada e requintadamente escabrosos não exigidos pela ação, e que em nada contribuem para o esclarecimento desta ação.

Acontece, porém, que este escritor tão pueril nas suas preocupações temáticas é um grande homem de teatro. O talento de Nelson Rodrigues está expressivamente presente em muitos aspectos de Toda Nudez Será Castigada. A estrutura das cenas é dinâmica, nervosa, enxuta; o diálogo é de uma vitalidade, autenticidade e colorido excepcionais, mesmo em se tratando de um autor que é reconhecidamente o grande renovador da linguagem teatral brasileira; há algumas idéias de notável eficiência teatral, como por exemplo o grotesco coro das três velhas tias; e há uma extraordinária capacidade de definir uma situação ou um personagem através de recursos extremamente econômicos. Citemos, por exemplo, a primeira entrada de Serginho, uma simples, curta e gaita frase: "Papai, o senhor agora usa talco nos pés?" - e toda uma faceta importante da peça se torna imediatamente clara e explícita, através de uma gargalhada.

Esta é, aliás, apenas uma das muitas gargalhadas irresistíveis, que constituem o que há de melhor em Toda Nudez Será Castigada. O personalíssimo humor negro de Nelson Rodrigues atinge aqui uma força ainda desconhecida, e a eficiência cômica dos seus efeitos grotescos sacode literalmente a platéia. Se pudéssemos considerar a peça apenas como uma comédia de costumes, ou melhor: uma caricatura de costumes, não poderíamos regatear-lhe o nosso incondicional aplauso; mas, infelizmente, parece que o autor, bem como muitos espectadores, insistem em ver na obra muito mais do que isto.

Até aproximadamente a metade da peça a força humorística e a intuição teatral de Nelson Rodrigues são suficientes para manter o interesse e conservar a obra num certo nível de dignidade, o que já é muito: tratada por qualquer outro autor, a mesma história não resistiria ao ridículo por mais de dez minutos. A partir do momento em que coloca em ação o incrível ladrão boliviano, o dramaturgo começa a se repetir, a repisar penosamente os mesmos efeitos, e a descambar definitivamente para o gratuito.