ZÓZIMO BARROZO DO AMARAL

A divertida crônica sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas é uma das muitas que o colunista escreveu para o Caderno Cidade, em 1986 e 1987. Mas o que mais marcou a carreira de Zózimo foi a amplitude do seu trabalho: com irreverência ou indignação, da piada ao furo, suas notas invadiam todas as áreas do noticiário. Sempre com o mesmo brilho.

A MALDIÇÃO DA LAGOA (19/12/1986)

O destino de certos logradouros são inescrutáveis. Está aí mesmo a Lagoa Rodrigo de Freitas que não deixa este espaço mentir. Que há algo de errado com ela, lá isso há.

Pois não foi nela que, singrando suas águas tranqüilas e imundas, um pedalinho há dias soçobrou? E onde é que já se viu um pedalinho soçobrar e seus tripulantes acabarem retirados da água como náufragos de mares procelosos? Só na Lagoa.

Primeiro que, por definição, um pedalinho é insoçobrável. Filho mal-acabado de uma banheira com um velocípede, o pedalinho é o que pode haver de seguro e só afunda por artes do demônio que certamente habita as profundezas do lugar.

Deve, aliás, ser o mesmo demônio que inspirou uma artista da categoria e do talento de Tomie Ohtake, laureada, exaltada e festejada nos quatro cantos do mundo, a criar aquele monstrengo flutuante que ganhou o nome de estrela mas que parece muito mais um polvo da Disneylândia.

No fundo - ou no raso, já que a Lagoa dá hoje a impressão de ter no máximo, mesmo no meio, uns 20cm de profundidade (a gente olha e vê a centenas de metros de distância garças com água pela canela. Ou a Lagoa tem uma profundidade pífia ou são aquelas as garças mais pernaltas do mundo) - Deus talvez tenha posto ali os demônios para se vingar dos atentados cometidos contra aquela sua criação.

A começar pelo nome, que passou de um bucólico e onomatopaico Sacopenã, como a chamavam os índios, para Rodrigo de Freitas, que ninguém tem a menor idéia de quem seja. A Lagoa Rodrigo de Freitas, a propósito, está para a atual geração assim como a ponte Marechal Costa e Silva estará para a garotada do ano 2000. Ela continuará a ter este nome, continuará a ser chamada de Rio-Niterói, e ninguém saberá quem foi o Costa e Silva que a batizou.

Entre as agressões cometidas contra a Lagoa ocupa um lugar de destaque a expansão noturna e silenciosa da área dos dois clubes nela instalados - o Piraquê e o Caiçaras. É o único caso que se conhece no Rio de crescimento de metro quadrado sem especulação imobiliária. O metro quadrado das duas ilhas cresce, não no valor, mas de tamanho.

Um dia, de tanto inchar a sua superfície, os dois clubes vão acabar se encontrando e poderão até se fundir formando uma única, extensa e poderosa agremiação - a Piraçaras ou a Caiçaquê.

A Lagoa, com seus momentosos pedalinhos, já chegou até a ser palco de modalidades novas de assalto, praticadas pelos piretes, uma mistura de pirata com pivete. A bordo de pedalinhos, conduzidos com destreza, os piretes abordavam em plena água casais românticos e crianças e os depenavam.

Por tudo isso, uma estranha maldição parece pesar sobre quem se aventura a explorar o atraente local, no qual até as quadras de tênis, construídas na margem, são em declive. Como se fosse possível jogar tênis numa ladeira.

De qualquer forma, toda essa série de mazelas lacustres pode estar com seus dias contados.

Afinal, desde o dia 15 de novembro passado, inclui-se entre os ilustres moradores da Lagoa o futuro governador Moreira Franco.

 


100 ANOS DEPOIS... (01/04/1969)