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JOSÉ
CARLOS OLIVEIRA
Em 1965, o mundo vivia
o auge da Beatlemania. No Brasil não era diferente. O quarteto de Liverpool
também invadiu as rádios, disputando a preferência dos ouvintes com a
Jovem Guarda, a Bossa Nova e as canções de protesto. A banda influenciou
o comportamento da juventude, do gosto musical aos cortes de cabelo. Carlinhos
de Oliveira destaca este último aspecto, em sua crônica.
OS BEATLES
(04/07/1965)
Fala-se muito ultimamente
em quatro rapazes: os Beatles. Eles representam para a Inglaterra o que
a Brigitte Bardot representava há pouco tempo para a França: um monte
de divisas. Por causa disso, a Rainha os elevou à Ordem do Império Britânico.
Diante do quê os velhos heróis britânicos devolveram suas condecorações.
Nesse momento ficou claro que os Beatles simbolizam a juventude atual,
cujo comportamento e linguagem estão em conflito permanente com os chamados
valores respeitáveis, representados estes pelos velhos heróis. Um deles,
Paul Mc Cartney, fez esta declaração importante:
- Os velhinhos estão
zangados porque nós conquistamos, cantando, a medalha que eles foram buscar
no campo de batalha. Pois eu acho que é muito melhor cantar do que fazer
a guerra.
Eis, em sua simplicidade,
o conflito. A juventude quer a dança, a bagunça alegre; os mais velhos
vêm com aquela velha história de honra e bravura, que acaba em sangue
e lama. O encanto dos Beatles reside no fato de que não levam nada a sério,
a não ser o dinheiro. E não se preocupam muito com o dinheiro, apenas
vão recolhendo aquilo que ganham com o seu trabalho. Mostram-se cabeludos
só para chatear, e um deles, John Lennon, considerado o intelectual do
grupo, chegou mesmo a publicar um livro completamente alucinado, que lembra
os belos tempos de outra geração igualmente descontraída, pacífica, alegre
e, por isso tudo, perigosa: os surrealistas. Foram dizer a John Lennon
que o modo como o seu livro fora escrito recordava a técnica de James
Joyce. Eis o que ele comentou:
Todo mundo falava
tanto que eu imitava o Joyce que acabei resolvendo lê-lo. Foi fantástico.
Incrível. Levei a metade de um dia para decifrar a metade de um capítulo.
Mas tive a impressão de reencontrar o meu papaizinho...
É bom que os jovens
não tenham medo de nada e que se lancem como iconoclastas sobre tudo o
que se considera mais sagrado e respeitável: os cabelos cortados, a literatura
de vanguarda, qualquer espécie de protocolo e, finalmente, aquilo que
é quase sempre o fim de tudo isso: a guerra para defender toda essa hierarquia,
que no entanto é sempre contestável. Quem fez a fortuna dos Beatles foram
as crianças. Em todas as regiões do Ocidente, as crianças se apaixonaram
por eles e começaram a disputar os seus discos. Foi uma penetração irresistível:
dos 200 milhões de dólares ganhos em 1964 pela indústria norte-americana
de discos, 50 por cento eram representados pelos Beatles. Cem milhões
de dólares, portanto, é quanto eles valem, em apenas um ano e em apenas
um país. Em vez de devolverem as medalhas, aqueles velhos senhores deveriam
começar a perguntar por quê. Por que os Beatles? Por que esses cabeludos,
esses que zombam de tudo e não levam nada a sério?
Porque atrás dos
Beatles estão toda a juventude e toda a infância. Esperemos que eles cresçam,
e muitos velhos senhores começarão a tremer.
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