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CARLOS
DRUMMOND DE ANDRADE
Um mês depois de lamentar
em versos a decadência de Belo Horizonte, Drummond compõe este poema de
amor ao Rio. Na crônica, abaixo, uma sátira, que se mantém atual, à linguagem
dos economistas e aos pacotes de efeito duvidoso. Na época, a inflação
passava de 10% ao mês.
RETRATO
DE UMA CIDADE (18/9/1976)
I
Tem nome
de rio esta cidade
onde brincam
os rios de esconder
Cidade feita
de montanha
em casamento
indissolúvel
com o mar.
Aqui
amanhece como
em qualquer parte
do mundo
mas vibra o
sentimento
de que as coisas
se amaram durante a noite.
As coisas se
amaram. E despertam
mais jovens,
com apetite de viver
Os jogos de
luz na espuma,
o topázio do
sol na folhagem,
a irisação da
hora
na areia desdobrada
até o limite do olhar.
Formas adolescentes
ou maduras
recortam-se
em escultura de água borrifada.
Um riso claro,
que vem de antes da Grécia
(vem do instinto)
coroa a sarabanda
a beira-mar.
Repara, repara
neste corpo
que é flor no
ato de florir
entre barraca
e prancha de surf,
luxuosamente
flor, gratuitamente flor
ofertada à vista
de quem passa
no ato de ver
e não colher.
II
Eis que
um frenesi ganha este povo,
risca o asfalto
da avenida, fere o ar.
O Rio toma forma
de sambista.
É puro carnaval,
loucura mansa
a reboar no
canto de mil bocas,
de dez mil,
de trinta mil, de cem mil bocas,
no ritual de
entrega a um deus antigo,
deus veloz,
que passa e deixa
rastro de música
no espaço
para o resto
do ano.
E não se esgota
o impulso da cidade
na festa colorida.
Outra festa se estende
por todo o corpo
ardente dos subúrbios
até o mármore
e o ray-ban
de sofisticados,
burgueses edifícios:
uma paixão:
a
bola
o
drible
o
chute
o
gol
no estádio-templo
onde se celebram
os nervosos
ofícios anuais
do Campeonato.
Cristo, uma
estátua? Uma presença,
do alto, não
dos astros
mas do Corcovado,
bem mais perto
da humana contingência,
preside ao viver
geral, sem muito esforço,
pois é lei carioca
(ou destino
carioca, tanto faz)
misturar tristeza,
amor e som,
trabalho, piada,
loteria
na mesma concha
do momento
que é preciso
lamber até a última
gota de mel
e nervos, plenamente.
A sensualidade
esvoaçante
em caminhos
de sombra e ao dia claro
de colinas e
angras,
no ar tropical
infunde a essência
de redondas
volúpias repartidas.
Em torno da
mulher
o sistema de
gestos e de vozes
vai-se tecendo.
E vai-se definindo
a alma do Rio:
vê mulher em tudo.
Na curva dos
jardins, no talhe esbelto
do coqueiro,
na torre circular,
no perfil do
morro e no fluir da água,
mulher mulher
mulher mulher mulher.
III
Cada cidade
tem sua linguagem
nas dobras da
linguagem universal.
Pula
do cofre da
gíria uma riqueza,
do Rio apenas,
de mais nenhum Brasil.
Diamantes-minuto,
palavras
cintilam por
toda parte, num relâmpago,
e se apagam.
Morre na rua a ondulação
do signo irônico.
Já outros vêm
saltando em profusão.
Este Rio...
Este fingir
que nada é sério, nada, nada,
e no fundo guardar
o religioso
terror, sacro
fervor
que vai de Ogum
e Iemanjá ao
Menino Jesus de Praga,
e no altar barroco
ou no terreiro
consagra a mesma
vela acesa,
a mesma rosa
branca, a mesma palma
à Divindade
longe.
Este Rio peralta!
Rio dengoso,
erótico, fraterno,
aberto ao mundo
como uma laranja
de cinqüenta
sabores diferentes
(alguns amargos,
por que não?),
laranja toda
em chama, sumarenta
de amor.
Repara, repara
nas nuvens: vão desatando
bandeiras de
púrpura e violeta
sobre os montes
e o mar.
Anoitece no
Rio. A noite é luz sonhando.
VERBETES
DE UM NOVO DICIONÁRIO (18/06/1983)
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