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MANUEL
BANDEIRA
O Plano de Metas,
a política desenvolvimentista, o surgimento da indústria automobilística.
Era o Governo JK, o dos cinco anos em um. O poeta-cronista, atento
rádio-ouvinte, se impressiona com a fala do simpático presidente.
A PROVA DA ESPUMA
(02/02/1958)
Quinta-feira passada,
depois do jantar, preparei-me deliciadamente para a audição pelo rádio
de um programa de sonatas de Mozart, com Lili Kraus ao piano. Mas quando
acionei o botão do meu aparelho vi que estava ligado em cadeia com 400
estações de rádio e cinco de televisão, que iam irradiar a saudação do
Presidente Juscelino Kubitschek ao povo carioca.
Torci o nariz, sou
mau patriota. Não tão mau, no entanto, que me recusasse a ouvir o Presidente
discorrer sobre as trinta metas do seu programa. Aliás nunca o tinha ouvido
antes. A eloqüência campanuda dos nossos Presidentes sempre me encheu
de tédio. Vargas, tão simpático na conversa, assumia nos discursos um
tom cantado e gabolas insuportável. Foi, pois com surpresa que escutei
a exposição do Presidente Kubitschek, toda proferida como se estivesse
apenas traçando um papo com os seus amigos. A hora escoou-se rápida. Contaram-me
depois que na televisão se via que o Presidente falou sem consultar uma
nota, numerando dezenas e dezenas de cifras sem a mínima hesitação, no
que revelou invejável memória."
A eloqüência de Vargas
era em tais ocasiões carregadamente demagógica. O atual Presidente cultiva
também a demagogia, mas com sutil malícia: afirma coisas espantosas com
um ar quase unconcerned de quem está dizendo verdades muito simples
e sabidas de todos. Por exemplo, no setor da alimentação e custo de vida,
declarou tranqüilamente que encontrou um carro descendo uma ladeira a
100 quilômetros por hora e conseguiu freá-lo para sete quilômetros: "Os
índices de aumento anuais caíram em 1956 um pouco e, já vertiginosamente,
em 1957." Pode ser que isso tenham sentido no seu bolso os amigos que
receberam câmbio oficial para passear na Europa; no meu, porém, o que
senti foram os 100 quilômetros da imagem à rebours do Presidente.
A oração de Sua Exa.
teria saído perfeita se não tivesse abusado, aqui e ali, de uma adjetivização
que poderemos classificar de... inflacionária. Mais de uma vez falou Sua
Exa. em milagre a propósito de suas realizações. Oh, com um ar muito modesto,
muito bom rapaz!
Felicito de coração
o Presidente. Pode ser que com essa elegância não consiga Sua Exa. lavar-se
das culpas de que o acusam os seus adversários. Mas que faz espuma, faz.
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