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JOÃO
SALDANHA
Em 1981, o futebol
brasileiro ainda estava distante da realidade de jogadores milionários
e parcerias econômicas de hoje. Mas a questão da publicidade em camisas
de clube já era debatida. João Saldanha toca no assunto com a veemência
habitual - e condena a propaganda nos uniformes. "O prejuízo é maior que
o lucro", sentencia.
A CAMISA DO CLUBE
(06/11/1981)
Volto a falar sobre
o negócio das camisas dos clubes e a publicidade sobre elas que alguns,
ingenuamente, pensam que resolve alguma coisa. Pois duvido. O prejuízo
é maior do que o lucro. Camisa de clube é muito importante. Tão importante
que a marca a vida das pessoas. Sem qualquer outro motivo, se não o das
vitórias e glórias, é lógico, o indivíduo se sente atraído pela camisa
deste ou daquele clube. Nada mais provocativo do que a queima de uma camisa.
Evidentemente isto é antes de tudo um ato de covardia que só é praticado
quando existe desvantagem flagrante da parte agredida. Quero ver algum
valentão ir tascar camisa (ou bandeira) de algum clube lá no setor da
outra torcida.
Mas é uma mística
muito preservada a das camisas. Outro dia mesmo, tivemos uma onda da oposição
no Flamengo quando time apareceu com camisas novas. Por sinal, mais bonitas.
A da "zebra", com listras mais largas, valorizou o uniforme sem lhe tirar
nada do tradicional. A outra, a sobre o branco, é uma camisa para jogos
noturnos ou para diferenciar de algum adversário em caso de colisão. Flamengo
e América, por exemplo, se jogam os dois de calção branco e com suas camisas
tradicionais, o visual do público, árbitro e jogadores é confuso e dá
margem a muitos erros. Um deve entrar com o uniforme número dois. Tudo
bem, pois é no interesse do futebol.
O que fica ridículo
é um time entrar com o uniforme da superstição. O Botafogo apareceu de
branco contra o Vasco e ganhou. Por que não apareceu assim contra o Americano?
Ou em todos os jogos? Como se verifica, este assunto é importantíssimo.
Tanto assim que a FIFA em suas competições não permite nada parecido.
Nem as meias podem ser as mesmas, como erradamente acontece aqui.
Mas o fato inegável
é que ninguém gosta de ver seu clube jogar com outro uniforme, mesmo que
seja o número dois. Lembram a final Brasil e Suécia? Os dois, de camisa
amarela, foram a sorteio. Nossos homens não dormiram ao saber que teriam
de jogar de azul e branco. Ganhamos. E ora bolas, quando a Seleção foi
jogar na Suécia outra vez, optou pelo azul e branco. Pintou sujeira e
o Brasil entrou pelo cano e se estrepou. Trata-se portanto de respeitar
os uniformes tradicionais e evitar palhaçadas ou que os pavilhões dos
clubes sirvam de propaganda para quaisquer produtos. Já pensaram no Vasco
de camisa preta anunciando ‘Coca-Cola’ ou ‘Brahma’, que anunciam na base
do vermelho? Não ficaria rubro-negro? E o Botafogo ou o Santos como ficariam?
E será que estes produtos quereriam anunciar na camisa do América nesta
fase? Muita confusão para pouco dinheiro e de resultado muito difícil
de avaliar. O mais certo é prejuízo para todo o mundo. E eu?! Como escreveria
na segunda-feira o jogo Botafogo e Flamengo? Um anunciando ‘Guaraná da
Brahma’ e o outro ‘Guaraná da Antartica’? É claro que se ganha o Botafogo
eu teria de dizer que o time da Brahma é melhor que o da Antartica. Ou
vice-versa. Chato, não é? Então respeitemos as camisas tradicionais.
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