PAULO MENDES CAMPOS

Às vésperas da posse de Fernando Collor, com a inflação chegando a 70% ao mês, o cronista aborda o desespero da população, sobretudo da classe média, com a crise econômica. E ao rememorar uma crônica de 1957, conclui que quase nada havia se alterado, depois de tantos anos. No tópico seguinte, registra, desencantado, a proliferação dos non books, os antilivros, “que vão expulsando do mercado a ciência, a informação e a literatura”.



CIFRAS E TÓPICOS (11/3/90)

Puxou conversa e explicou seu problema:

- Por que fui nascer e viver num caldeirão inflacionário? O negócio é o seguinte: é que eu gosto muito de uísque, a bebida que não me faz mal, quando pura, quando escocesa... Vem o reajustamento de salário (sou vendedor-chefe de uma fábrica de produtos químicos), pego o lápis, ajeito minhas contas com a patroa, capricho no orçamento e passo alguns dias feliz, bebendo o meu uísque todas as tardes depois do trabalho. Mas o negócio emperra logo, fica difícil, vou diminuindo a cota de uísque; quando não dá mais jeito, volto a tomar batida. Que eu detesto. Fico à espera de novo reajuste, e às vezes acabo dando um jeito de enfiar o uísque dentro da minha verba. Mas a vida vai subindo, vai subindo, e eu caio novamente de beiço na cachaça. Me diga uma coisa: pode-se dormir com uma tortura assim?

Em maio de 1957 eu escrevi a seguinte croniqueta no Diário Carioca: Não estou a ver com boa cara os anos futuros, a julgar pelas novidades que este 1957 vem introduzindo em minha vida particular. Até 1956 tirei férias para viajar; este ano, como se diz, entrei em gozo de férias para trabalhar. Eu, que me conheço mais ou menos, posso afirmar que sou um quadro vivo, um gráfico estatístico da inflação. Para sustentar o mesmo padrão de vida de dez anos atrás, vou-me virando de ano para ano, brigando muito para manter-me à tona, dando dezenas de braçadas a mais para nadar a mesma distância. Sinto magoadas saudades dos tempos aurorais em que Prudente de Morais Neto podia perguntar-me com justiça em nossos encontros: "Como vai, vagabundo?". O custo de vida, infelizmente, não me faz mais merecedor do carinhoso epíteto de vagabundo.

- E eu com isso? - perguntará o leitor.

Leitor, se não és mau; se não dizes tal coisa apenas para tirar-me a graça, és rico. Do contrário, saberias que o meu assunto, embora tratado sem encanto, não é apenas meu, é de todos os brasileiros assalariados. Se é homem de posses entraste equivocado nesta coluna.

Transforma-se este país em coisa vil e melancólica. Até a classe média, depois de perder a segurança, também perdeu a máscara com que sempre buscou disfarçar sua angústia financeira. Hoje todo mundo confessa abertamente seus últimos esforços de resistência orçamentária. Não se escuta senão a queixa cansada e minuciosa da carestia. O custo de vida é o tema monótono das esquinas. O Brasil de hoje é um país perfeitamente chato. A preocupação financeira acabou com a alegria e a espontaneidade. As aspirações se mutilaram, as almas perderam o viço. Como ninguém pode mais fazer programas para o futuro, o sentimento dominante é a depressão. O povo está de saco cheio. Muito simples. E muito perigoso.