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CLARICE
LISPECTOR
1968. Chico Buarque
no apogeu compondo uma obra-prima após outra. Os festivais. Estudantes
na rua. O computador não passa de um cérebro eletrônico. Na primeira crônica,
a escritora se deslumbra com o ídolo “lindo, tímido e triste”. E na segunda
estranha a geringonça que contém uma fita de papel “cheia de buraquinhos”.
CHICO BUARQUE
DE HOLANDA (4/2/1968)
Entrei num restaurante
com uma amiga e logo deparei com Carlinhos de Oliveira, o que me deu alegria.
Olhei depois em torno. E quem é que eu vejo? Chico Buarque de Holanda.
Eu disse para Carlinhos: quando meus filhos souberem que eu o vi, vão
me respeitar mais. Então Carlinhos, que se sentara na nossa mesa, gritou:
Chico! Ele veio, fui apresentada. Para a minha surpresa, ele disse: e
eu que estive lendo você ontem!
Chico é lindo e é
tímido, e é triste. Ah, como eu gostaria de dizer-lhe alguma coisa - o
quê? - que diminuísse a sua tristeza.
Contei a meus dois
filhos com quem eu estivera. E eles, se não me respeitam mais, ficaram
boquiabertos.
Então eu tive uma
idéia e não sei se ela irá adiante; se for, contarei a vocês. Era chamar
Chico e Carlinhos para me visitar em casa. Eu os verei de novo, e sobretudo
meus filhos os verão. Falei dessa idéia e um de meus filhos disse que
não queria. Perguntei por quê. Respondeu: porque ele é uma personalidade.
Eu lhe disse: mas você também é, aos sete anos de idade ouvia tudo de
Beethoven que tínhamos e pedia mais, tanto gostava e sentia e entendia.
Mas quero respeitar
meu filho. Disse-lhe: se eu convidar Chico, se ele vier, você só aperta
a mão dele e, se quiser, sai da sala.
Também achei Carlinhos
triste. Perguntei: por que estamos tão tristes? Respondeu: é assim mesmo.
É assim mesmo.
CÉREBRO
ELETRÔNICO:
O QUE SEI É QUE É TÃO POUCO
(13/07/1968)
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