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Aço: herói ou vilão?

Setor ajuda balança comercial e pressiona inflação

Marcelo Pinho

RIO - Se por um lado a indústria siderúrgica é considerada heroína pelo desempenho nas exportações, ao responder por 12% de todas as vendas brasileiras para o exterior, por outro é vilã, ao ser responsabilizada por diversos aumentos nos preços de produtos, cujas cadeias produtivas demandam aço.

A alta dos preços internacionais do produto e de seus insumos é explicada pela excessiva demanda chinesa, que pressiona o valor cobrado para os consumidores internos. O resultado é o aumento dos custos das indústrias, como a de eletrodomésticos, tubos e automóveis, e o conseqüente repasse para os preços finais.

As altas, no entanto, não são facilmente repassadas para o resto da cadeia produtiva. O diretor da Tubos Apolo, fabricante de tubos de aço, Carlos Eduardo de Sá, destaca a demora para conseguir diluir os aumentos.

"Enquanto as siderúrgicas aumentam seus preços quase simultaneamente, nós levamos quatro meses para repassá-los. Nesse ínterim, sou obrigado a diminuir as margens de lucro", reclama.

O aço é a principal matéria-prima para produção de tubos de aço, e representa quase 80% dos custos totais da empresa. Segundo Carlos Eduardo, os preços das bobinas laminadas a quente passaram de US$ 280 em 2000 para US$ 450 neste ano.

A Dedini Indústria de Base, que produz caldeiras de aço inox para cervejarias e engarrafadoras, viu os preços da chapa de aço inox saltarem 42% em um ano, mais de 30 pontos percentuais acima da inflação. O produto, comprado da Acesita, representa mais de 40% do custo total das caldeiras.

"Nós temos uma dificuldade muito grande para repassar esses aumentos. Os contratos são fechados com antecedência de até um ano e os preços, fixos. Não podemos alterá-los e somos obrigados a reduzir as margens de lucro", explica o presidente corporativo da empresa, Tarcísio Mascarin.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), "os preços internos do aço são significativamente mais baixos do que os internacionais. Os valores chegam a ser 54% menores do que os praticados nos mercados internos de outros países".

A indústria siderúrgica alega que os preços internacionais dos insumos do aço estão elevados. Somente em 2003, segundo o IBS, o minério de ferro subiu 41,20% e o coque, 147%.

Para compensar os custos, as siderúrgicas elevaram seus preços, em média, entre 9% e 13% em janeiro de 2003. Neste ano, os reajustes variam entre 12% e 15%. Outra causa para os aumentos são as exportações. A gigantesca demanda chinesa elevou o preço internacional do produto.

O lado bom dessa história é que as exportações de aço respondem por quase 12% de todas as vendas brasileiras para o exterior e contribuem para o bom resultado do saldo da balança comercial. Em 2003, as empresas siderúrgicas, somadas, venderam 12,9 milhões de toneladas de aço e trouxeram para o país US$ 3,8 bilhões. As exportações de bobinas a quente, por exemplo, cresceram 85%, bobinas a frio, 65% e chapas grossas, 45%.

A valorização dos preços internacionais do aço multiplicou o ganho das empresas com as exportações. A receita de produtos como chapas galvanizadas cresceu 297%; semi-acabados, 15%; chapas de aço não-revestidas, 90% e a de bobinas, a frio e a quente, saltou 100% em relação a 2002.

A conseqüência dessa valorização do aço pode ser verificada nos índices de inflação. No IGP-M, os preços industriais no atacado representaram os maiores aumentos, com reajustes de 1,61% em fevereiro. E a explicação para isso está, em parte, nos custos do aço.

Segundo o coordenador de análises econômicas da FGV, Salomão Quadros, o resultado não indica uma corrida por esses produtos: "Não é um crescimento de demanda e sim um repasse de aumentos de custos como o do aço e da alíquota da Cofins".


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[05/MAR/2004]


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