Pixinguinha revisitado
Zé da Velha e Silvério
Pontes recriam "Carinhoso" e outras pérolas
do compositor
Gardênia Vargas
Dupla de longa estrada e grande afinidade,
o trombonista Zé da velha e o trompetista Silvério
Pontes estão lançando "Só Pixinguinha",
quinto disco instrumental em 22 anos amizade. Foram registradas
12 faixas com músicas de um dos grandes mestres da
música popular brasileira. Pixinguinha estaria completando
109 anos no último dia 23, o dia do choro.
Silvério, que tem 20 anos a menos que
seu companheiro, explica qual foi o objetivo do CD:
- A idéia era reviver a história
de Zé da Velha com Pixinguinha, que tocaram juntos,
e mostrar o elo da música entre as gerações.
Comungamos uma música de quase 100 anos de idade com
no mínimo três gerações diferentes:
eu, Zé e os meninos da banda. É assim que acontece
nas rodas de choro.
O trombonista já transitava entre a
velha guarda do choro com apenas 17 anos e, por isso, recebeu
o apelido de "Zé da Velha Guarda", que mais
tarde virou "Zé da Velha", que carrega até
hoje. Nesse tempo conviveu com mestres como Donga, João
da Baiana e Pixinguinha.
- Pixinguinha era um ser iluminado. Nunca vi
esse homem brabo com ninguém - descreve Zé da
Velha.
A dupla convocou um grupo de peso para a gravação
do álbum: Charlles da Costa (violão), Alessandro
Cardoso (cavaquinho) e Netinho Albuquerque (pandeiro). A formação
também os acompanha em shows. Marcelo Pizzott (percussão)
participa de quase todas as faixas do disco. Já os
arranjos foram divididos entre Henrique Cazes e Jayme Vignoli,
além do pianista Cristóvão Bastos, que
assina e participa da faixa "Desprezado". As participações
especiais salpicam no CD, entre nomes como Yamandú
Costa, Humberto Araújo, Paulo Sérgio Santos,
Joel do Nascimento, Alexandre Maionese, Marcos Nimrichter
e outros.
O repertório do trabalho - gravado com
ajuda da Secretaria de Cultura de Casimiro de Abreu e lançado
pela gravadora Biscoito Fino - foi escolhido a dedo. Clássicos
do choro se entrelaçam com músicas não
muito conhecidas do compositor. "Carinhoso" é
uma das grandes surpresas do disco. Uma das músicas
mais tocadas de Pixinguinha, a faixa ganhou releitura moderna
no violão de Yamandú, mas peca em manter a banda
base e não isolar o diálogo fluente entre o
trombone e o violão.
Mostrando toda intimidade da dupla, Silvério
conta como escolheram as músicas:
- Como de costume, sentamos no botequim para
conversar e pensamos no repértório. Escolhemos
músicas que gostamos de tocar, que tenham a ver com
a nossa "pegada". "Sedutor", por exemplo,
foi indicada por Paulinho da viola, e "Desprezado"
é um clássico pouco tocado nas rodas de choro.
Já "Ingênuo" foi muito gravado, mas
o Zé gosta muito de tocar, e assim foi.
Com a voz embargada e as pálpebras molhadas,
Silvério confessa sua profunda admiração
pelo companheiro:
- O casamento musical é fruto do respeito
pelo ser humano. Sempre tive muita admiração
pelo Zé, desde garoto vejo ele tocando, era um sonho
pra mim...
Zé toma a rédia da conversa e
narra a história do dueto:
- Eu tocava todo sábado em uma churrascaria
em São Cristovão, já tinha lá
para os meus quarenta e poucos anos. Um belo dia Camunguelo
(sambista) me disse: "Zé, tem um menino que quer
muito te conhecer". Então falei pra ele levar
o menino, mas no outro sábado ele não foi. Fiquei
sabendo que o tal menino tocava trompete com Camunguelo num
bar, na rua do mercado. Algum tempo depois decidi fazer uma
visita. De lá pra cá você já pode
imaginar - conta o trombonista, com um imenso sorriso no rosto.
Silvério relembra o dia que marcou sua
vida:
- Quando vi o Zé entrando, com seu bigodinho
e o cabelo todo arrumadinho, logo pensei: "Esse aí
só pode ser o Zé da velha". Eu não
o conhecia, só por disco, naquela época era
assim. Ele entrou com a maior humildade, tocou seu trombone,
puxou uns chorinhos, tomou um chopinho. Foi aí que
comecei a "encher o saco ". Perguntei onde ele estava
tocando, se podia aparecer por lá. Eu anotava as músicas
que ele tocava e procurava as partituras. Cada semana que
eu aparecia estava tocando dois choros novos - conta Sivério.
- Eu era muito chato, ficava atrás dele, achava a coisa
mais maravilhosa do mundo.
Não demorou muito Zé precisou
de alguém para tocar como ele na tal churrascaria.
Perguntou a Silvério, que topou na hora. Isso aconteceu
em 1986, e oito anos depois eles gravaram o primeiro disco,
"Só gafiera", indicado ao prêmio Sharp.
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