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| Quilombo São José da
Serra: até 2004 não havia luz na comunidade, o que não
impediu que a festa atraísse admiradores |
Onde o tempo pára
Em Valença, descendentes de escravos
fazem do jongo um meio de sobrevivência
Débora Motta
VALENÇA – A 12 km de Santa Isabel do Rio Preto,
distrito de Valença, vive uma comunidade de cerca de 150 descendentes
diretos de escravos do Vale do Rio Paraíba, todos parentes.
Até 2004 nem luz elétrica havia no lugar, há falta de terreno
para plantação e o êxodo rural é grande. Naquele pedaço de
terra, sobrevive, incólume ao tempo, o jongo, dança de origem
africana que gerou o samba. O Quilombo São José da Serra faz
a tradição resistir ao tempo. No dia 13 de maio, como acontece
desde 1984, uma parte dessa história foi contada: quatro comunidades
jongueiras de Barra do Piraí, Angra dos Reis, Pinheiral e
da Serrinha se apresentam em meio a uma programação que atrai
simpatizantes do ritmo de todas as partes do estado do Rio.
O dia promete não terminar em Valença. O evento,
que começou com uma missa afro às 10h, contou também com a
participação da cantora, instrumentista e pesquisadora Luciane
Menezes.
– No ano passado, esperávamos cerca de mil
pessoas, mas recebemos seis mil. A renda do público que vem
para cá é muito importante para acomunidade – disse Toninho,
líder do Quilombo.
Apesar dos recursos obtidos com as apresentações,
a situação é precária. A agricultura familiar e a criação
de animais como frangos e porcos são a base da alimentação
dos quilombolas.
– Quem já deixou o quilombo consegue melhorar
de vida e aí também dá vontade de ir embora – disse Rosilene,
de 24 anos, que foi babá em Volta Redonda, estudou inglês
e sonha virar secretária.
Inicialmente restrita aos moradores, a Festa
do Quilombo São José foi criada para levantar recursos para
a comunidade. Há venda de bonecas produzidas com palha de
bananeira e de milho. Realizadas todos os anos em homenagem
ao Dia de São Benedito, mesma data da abolição dos escravos
no Brasil, as apresentações ganharam vulto. Por vezes o jongo
do Quilombo São José deixou Valença para pisar palcos como
os do Theatro Municipal e do Canecão. Um CD-livro com 26 faixas
e que conta a história do quilombo foi lançado em 2004, com
o apoio da Associação Brasil Mestiço.
– Não queremos ser vistos apenas como artistas
– afirmou Toninho. – Temos que viver do cultivo da terra para
preservar nossa cultura. Quando dançamos, os espíritos de
nossos antepassados, os “pretos-velhos”, vêm para a roda.
É uma forma de dialogar com nosso passado escravo.
Visitar o quilombo é uma viagem ao passado.
O ferro de passar a carvão e o forno à lenha ainda fazem parte
do cotidiano. Os costumes remontam aos tempos dos dois primeiros
casais africanos trazidos da região do Congo-Angola, no século
XIX, para a fazenda cafeeira da família Ferraz. Naquele tempo,
era proibida a prática do jongo pelos mais jovens, como contou
Dona Maria, de 106 anos, moradora antiga do lugar:
– Os jovens passaram a dançar para que novas
gerações continuassem a história.
O jongo nasceu nas lavouras de café para aliviar
o sofrimento dos escravos. Serviu de comunicação entre eles,
que combinavam rebeliões ou faziam chacota dos senhores em
banto (idioma da etnia africana). Os quilombolas lutam para
manter a história viva. O desafio, destacou Toninho, é atualizar
tradições sem perder o espírito ancestral:
– Tem gente que prefere a luz do candeeiro
à luz elétrica porque tem medo que a casa pegue fogo.
Apenas 22 casas de sapê abrigam todos em cinco
dos mais de 400 hectares da fazenda. Em 1999, a Fundação Cultural
Palmares reconheceu os remanescentes quilombolas, abrindo
caminho para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária desapropriar as terras e doá-las aos jongueiros. Procurado
pelo JB, Celso Souza Silva, funcionário do Incra, informou
que não há previsão da cessão do terreno:
– Vamos trabalhar para que isso aconteça ainda
este ano.
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