Foto de Ana Paula Amorim
Dirk Schade: ‘O público depende menos das rádios’'
Independência em Berlim
Popkomm homenageia a cena musical brasileira
à margem da indústria fonográfica

João Bernardo Caldeira

Por 250 mil euros (cerca de R$ 600 mil), o governo brasileiro garantiu a presença do país como homenageado da 17ª edição da Popkomm, uma das maiores feiras de música do mundo. Dirk Schade, organizador do evento, realizado anualmente em Berlim, esteve no Brasil na semana passada para fechar as 21 atrações brasileiras que se apresentarão no festival. Entre elas estão Yamandú Costa, Cidadão Instigado, Cabruêra, Naná Vasconcelos, Carlos Malta, Sonic Jr e Kátia B. Schade diz que sua intenção é colher nomes de diversos gêneros brasileiros de carreiras ainda desconhecidas do público europeu. Os 21 nomes estarão divididos nos três dias do Popkomm, que acontece de 20 a 22 de setembro.

– A maioria das pessoas na Europa classifica a música brasileira de world music. Só que o potencial é muito maior – diz Schade, de 39 anos. – É possível colocar, por exemplo, o rap brasileiro na prateleira de rap de uma loja de discos e penetrar no mercado internacional de olho nos nichos específicos.

A candidatura do Brasil foi apresentada pelo projeto Música do Brasil, uma iniciativa conjunta da Associação Brasileira da Música Independente, da entidade Brasil Música e Artes e da Associação Brasileira das Gravadoras Independentes. O projeto recebe uma verba anual de R$ 3 milhões de incentivos do Ministério da Cultura, do Sebrae e da Agência de Promoção de Exportações e Investimentos.

Dirk se vangloria pelo fato de o Popkomm manter sua essência independente em quase 20 anos de existência. Não recebe atrações do mainstream e faz questão de montar shows em palcos intimistas, com capacidade para no máximo mil pessoas. Trezentas atrações se apresentarão em 90 casas de show e clubes de Berlim. Além das apresentações, o evento mantém uma grade fixa de palestras e estandes de negócios de selos, produtores e olheiros de gravadoras vindos de todas as partes do mundo. A idéia é ganhar dinheiro com o segmento alternativo:

– Acho importante poder dizer: “Sim, queremos ganhar dinheiro, mas sem perder contato com a música e com o público”. O lado comercial não está em primeiro lugar.

Para o organizador, o momento é propício para a música brasileira romper barreiras. A dificuldade, ele explica, não é apenas ganhar e ampliar mercado no exterior, mas conseguir vender algo diferente dos velhos clichês “samba e bossa nova”.

– Hoje, acredito que os europeus estão mais abertos para novos mercados como o Brasil. Talvez por causa da internet, o público passou a depender menos da mídia tradicional, como as rádios, e começou a buscar novidades na rede. O Brasil pode e deve se aproveitar dessa janela – avalia o organizador, destacando a poderosa influência dos produtos brasileiros. – Aqui na Alemanha há uma banda chamada Seeed que canta em alemão sobre ritmos percussivos inspirados na música brasileira.

Dirk diz ter ficado muito impressionado com as bandas que se inscreveram para tocar . Uma comissão formada no Brasil escolheu 38 nomes entre 150 para enviar a Schade. Entre as escolhas, ele ficou particularmente feliz em poder contar com gêneros distintos, que misturam rock (do alagoano Wado), eletrônica (Bossacucanova e Kátia B.), percussão e regionalismo (Cabruêra, da Paraíba, e Naná Vasconcelos) e solos virtuoses (Armandinho, Yamandú Costa). Ele diz gostar de apostar em novos talentos:

– Não temos as estrelas de amanhã, mas, para ver os destaques do futuro, você precisa ir ao Popkomm.