Foto de Nino Andrés
Cantora regravou, até mesmo, sucesso da Blitz, onde começou sua carreira
O suingue da eterna garota carioca'
Cantora Fernanda Abreu lança disco ao vivo com releituras de clássicos do funk e de grandes sucessos de sua carreira

Débora Motta

Em homenagem a seus 24 anos de carreira, a cantora e compositora Fernanda Abreu lança o CD e o DVD "Ao vivo MTV - Fernanda Abreu", gravado em março, no Teatro Carlos Gomes, pelo selo Garota Sangue Bom - da própria artista -, e distribuído pela Universal Music. No repertório, hits que marcaram a trajetória da eterna garota carioca como A noite, Veneno da lata, Jorge de Capadócia e Rio 40 graus, além da releitura da música A dois passos do paraíso (Ricardo Barreto e Evandro Mesquita), sucesso dos anos 80 da Blitz, banda em que Fernanda começou, fazendo backing vocal:

- Nunca precisei gravar uma música da Blitz na minha carreira solo, mas escolhi A dois passos do paraíso porque o CD traça um panorama da minha história, desde o início - diz a cantora, acrescentando que reviver a Blitz foi emocionante. - Foi um momento único. Não acredito que a banda tenha volta hoje, mesmo com o talento do Evandro Mesquita, porque é outra formação.

A influência funkeira de Fernanda aparece nas faixas inéditas Baile Funk, de Rodrigo Maranhão, e Bloco Funk, um pout-pourri com funks que fizeram dançar diferentes gerações, como Rap da massa funkeira, Rap da felicidade, Som de preto e Vem Cristiane :

- Quando escolhi o Teatro Carlos Gomes para a gravação, muita gente achou estranho eu tocar funk num lugar tradicional, com o público sentado. Mas foi um sucesso, as pessoas levantaram e dançaram até o fim do show. Adorei o resultado do disco ao vivo, com a boa acústica do lugar e a energia do público.

Ao Bloco Funk, Fernanda acrescentou marchinhas de carnaval como Maria Sapatão e Cabeleira do Zezé:

- Resolvi colocar no mesmo bloco funks e marchinhas porque os dois estilos têm em comum letras com duplo sentido - explica, dizendo que os versos de funks eróticos não agridem a imagem da mulher. - A cantora Tati Quebra-Barraco é uma Leila Diniz da atualidade, no sentido da liberdade com que ela fala de sexo. Não me importo que minhas filhas cantem esse tipo de música. Acho futurista, antropológico. É só música, não ameaça a ordem pública.

A paixão pelo funk da cantora uniu Rômulo Costa, da Furacão, e o DJ Marlboro para a gravação do disco:

- Os dois estavam brigados e são as pessoas mais importantes da cena funk no Rio. Eu pedi a participação do DJ Marboro e de atrações musicais da Furacão porque acima de tudo tem que estar o movimento. O funk é maior e precisa da organização dos artistas para que eles não sejam descartáveis e entrem no hall da MPB.

Fernanda acredita que há um culto à bandidagem no funk, mas que o movimento não está associado somente ao narcotráfico e sofre com o preconceito da classe média:

- O funk é associado ao narcotráfico, o que não deixa de ser verdade porque o Estado não sobe no morro. Há uma espécie de glamourização da bandidagem. Os traficantes querem ser ícones no crime e se organizam também na parte cultural, com letras de funk "proibidão", sobre o submundo do tráfico, na moda e nas gírias. Mas existe um preconceito da classe média branca porque o funk é música de preto e pobre.

A cantora defende a estética do movimento, mesmo admitindo que falta qualidade técnica para o funk entrar no mainstream:

- Muitos artistas funkeiros já estão mais afinados e tentam rimas e temas mais interessantes, falando não só de sexo e da realidade da favela, mas até de política - defende Fernanda, prevendo a evolução do ritmo. - A estética do funk é comportamental e o futuro do movimento é a diversidade rítmica. Assim como o samba, que nasceu na favela e chegou a formatos como partido alto, samba-canção e samba de roda, o funk vai encontrar novas batidas. Hoje, temos o tamborzão e o planet rock.