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| João Gordo, Boka, Jão
e Juninho lançam ''Homem inimigo do homem, que
traz inéditas |
Momento ''light'', disco ''hard''
Apesar da fase amena de João
Gordo, Ratos de Porão lança um de seus CDs mais
pesados
Raphael
Crespo
Na contracapa de Homem inimigo do homem,
o novo lançamento do Ratos de Porão, considerados
os reis do hardcore brasileiro, o grupo posa sorrindo em meio
a um jardim de girassóis. A cena lírica deve
chocar os fãs. Tanto quanto suas letras e seu som,
pesadíssimos, chocam os que não são.
João Gordo, líder e vocalista, diz que a foto,
que contrasta com a violência das imagens da capa, dos
temas e da sonoridade das músicas inéditas,
não quer dizer nada
- É uma foto meio Legião Urbana, de zoeira mesmo.
Mas esse é um dos nossos discos mais irados - diz Gordo.
Já se foi o tempo em que o Ratos de Porão era
''cada dia mais sujo e agressivo'', como dizia o título
de um de seus álbuns clássicos, lançado
em 1987. Hoje, o R.D.P. está mais limpo, mas não
menos agressivo. A prova disso é justamente o disco
recente, um dos mais pesados dos 25 anos de carreira da banda.
- É um resgate do crossover (misto de trash metal com
hardcore). São quatro cabeças pensando juntas.
É muita ira, muita raiva. Tem gente que só faz
letra boa quando está na pior. Mas estou no melhor
momento da minha vida. A inspiração está
em volta: na polícia, nos governos, no Bush - diz João
Gordo.
No começo, o vocalista tentava, com drogas, álcool,
cigarros e comida, chegar ao fundo do poço. Chegou.
Obeso mórbido, no final de 2000 esteve à beira
da morte, internado numa UTI, com arritmia cardíaca
aguda e insuficiência respiratória. De lá
para cá, o roqueiro paulista passou por uma cirurgia
de redução do estômago, perdeu dezenas
de quilos, melhorou o ritmo do coração, teve
dois filhos e, há 10 anos, arrumou um emprego estável
como apresentador da MTV, o que o transformou num ''ídolo
pop, mainstream'', segundo suas próprias palavras.
Aos 42 anos, João Gordo está light
Autor de 11 letras das 12 que compõem o novo disco
- a faixa Quem te viu..., uma crítica ao presidente
Lula, foi escrita pelo guitarrista Jão -, o vocalista
admite que teve dificuldades para dar conta do serviço.
Não por falta de inspiração, mas de tempo.
- Meu filho nasceu em setembro e eu estava em meio a fraldas
e mamadeiras. Quando consegui me desvencilhar um pouco, fiz
tudo - conta o pai de Victória, de 2 anos, e de Pietro,
o novo rebento.
Estabilizado com Jão na guitarra e Boka na bateria
desde o início dos anos 90, o Ratos trocou várias
vezes de baixista. O dono das quatro cordas atualmente é
Paulo ''Juninho'' Sangiorgio, veterano da cena hardcore paulista.
Gordo ressalta sua importância:
- O Juninho ajudou a fazer as músicas, é um
cara muito experiente.
Com disco na praça, a meta de qualquer artista é
sair em turnês. Em outros tempos, seria assim para o
R.D.P., não só no Brasil, mas no exterior, pois
o grupo é conhecido lá fora. Atualmente, no
entanto, pai de família e com compromissos na MTV,
Gordo já não se aventura pela estrada.
- Há 10 anos consigo conciliar MTV e Ratos de Porão.
Mas, hoje em dia, só vou tocar em lugares em que nunca
toquei. Não vou mais me meter a ficar dois meses na
Europa. Tenho família. Já fomos muito para fora.
Ir para a Europa, para a gente, é como ir para Osasco.
A banda virou hobby na vida de João. Mas não
um hobby qualquer e, por isso, o vocalista tem o apoio dos
outros integrantes.
- A banda aceita, pois é assim que tem que ser. Do
contrário, não rola. Não ganho dinheiro
com o Ratos de Porão. Mas se estou na banda até
hoje, é porque gosto de estar nela - afirma, categórico.
Em uma das letras do novo disco O equivocado, João
Gordo critica a alienação da juventude do século
21 e cita, como exemplo, os fãs de bandas do estilo,
muito difundido pela MTV, chamado emocore - espécie
de pop-punk com letras românticas. Embora trabalhe na
emissora, o apresentador não gosta do que esta exibe
e não vê problema nenhum nas críticas
que faz.
- Não gosto da programação da MTV e eles
sabem disso. Mas gosto da casa. Graças a mim, as pessoas
têm a oportunidade de ver bandas como Krisiun, GBH e
Discharge em horário nobre. Para eu gostar da MTV,
teria que passar O Pica-Pau, Tom & Jerry e Ultraseven
misturados com clipes das bandas que curto. Não assisto
à MTV. Não assisto nem ao meu programa - revela.
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