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A atriz Marjorie Estiano conquista o
público com a corajosa Marina da novela Páginas
da vida
Por Alexandre Werneck
Marjorie Estiano é cuidadosa. Fala escapando
do observador, desviando o olhar para refletir. De vez em
quando, permite-se conferir como o outro a olha e lhe devolve
as pupilas. Mas logo depois mexe no cabelo, sorri e retorna
ao olhar baixo. Com sua voz, de sotaque puxado nos esses
de curitibana, vêm frases elaboradas e, sobretudo, tateadas.
Ela toma cuidados. Fala na primeira pessoa do plural, como
que a querer dividir a responsabilidade com um coletivo que
é ela mesma (mas pode juntar amigos, familiares e assessores).
É diplomática. Parece não querer agredir
ninguém. Nem a si mesma. Ao ser perguntada, observa
o interlocutor com um ar de não-estou-entendendo, para
desmentir esse ar logo depois: ela é boa de respostas.
E tem recebido boas também. De público e crítica,
todos impressionados com sua atuação como a
jovem e corajosa Marina, na novela da TV Globo Páginas
da vida, de Manoel Carlos. A atriz e cantora de 26 anos, sentada
em um café de livraria no Leblon, explica tamanho cuidado:
Tudo isso que me aconteceu assusta.
O tudo isso a que se refere foi ela ter aparecido
para o Brasil, há três anos, na mesma emissora,
como a temperamental roqueira Natasha, de Malhação,
um papel de cantora que lhe rendeu na vida real o lançamento
do disco que leva seu nome, um enorme sucesso.
Essas coisas são todas descartáveis.
O que eu queria na TV era descobrir como trabalhar com sua
linguagem. Televisão sempre foi um meio, não
um objetivo.
Depois da anti-heroína em uma novelinha adolescente,
Marjorie foi convocada para uma atuação densa
no horário nobre: Marina é filha do alcoólatra
Bira (Eduardo Lago). Está nas mãos da jovem
tentar a redenção do pai. Além disso,
depois do primeiro disco, de músicas teen, lançou
o DVD Marjorie Estiano e banda ao vivo, em que canta, além
de um repertório jovem, Chico Buarque e Quincy Jones.
Gosto de muitas coisas e ouço muitas coisas.
Mas um primeiro CD nunca é a tradução
de sua personalidade diz ela, que deve entrar em estúdio
até o fim do ano para um novo disco. Nada disso
fez parte de estratégias. Fomos trabalhando à
medida que as coisas iam aparecendo diz, dando à
sua relação com o primeiro trabalho um tom de
gratidão.
Mas é passado. Marjorie tem vôos mais altos a
dar, por mais que sua doce diplomacia a impeça de reconhecer.
Há, entretanto, quem ache que já chegou a hora.
Manoel Carlos, por exemplo. O papel não caiu do céu
no colo da moça. Ela fez um teste, acompanhado pelo
novelista.
Ela se destacou de primeira diz ele.
Entre os personagens jovens, Marina era e está sendo
o mais difícil e Marjorie correspondeu. Pelo meu método
de escrever, o retorno do trabalho dos intérpretes
é fundamental. E ela me dá um retorno altamente
inspirador.
Seguindo a linha realista do autor, a moça diz que
a melhor ferramenta para um ator é a observação:
Os personagens estão na rua. Todos muito vivos,
muito coloridos.
Para compor Marina, entretanto, ocorreu uma coincidência
entre sua vida pessoal e a da personagem: o avô da atriz
foi alcoólatra.
Minha genética é maravilhosa para este
papel brinca, tirando o peso do assunto. Minha
mãe era muito nova quando isso aconteceu, assim como
a Marina. Troquei muita idéia com ela.
Para Marjorie, a observação começou cedo.
Pequena, dizia para a mãe que queria ser atriz e ouvia
dela que tinha de estudar então. Aos 15 anos, ela começou
a fazer um curso técnico de teatro em Curitiba. Ao
se formar, foi para São Paulo, onde fez dois anos de
faculdade de música e atuou em comerciais e peças
como na versão da comédia Bárbara
não lhe adora, de Henrique Tavares. Em 2003, foi aprovada
para a Oficina de Atores da Globo, e veio para o Rio. Mais
um teste e estava em Malhação com sua personagem,
que, a princípio, teria uma participação,
mas acabou ficando em cena por quase três anos. Depois,
veio Marina. Personagens demais em uma história tão
curta de quem toma tantos cuidados?
Aprendi a arriscar. Sempre tive medo de entrar em coisas
novas. Mas como nunca vou ter total segurança de nada,
então precisava correr riscos, tentar. Se desse certo,
continuaria.
E tem dado. Marina mostra ao Brasil uma atriz segura de si,
econômica o suficiente para tornar convincente uma personagem
com tudo para ser over.
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