Grande menina

02.10.2006

A atriz Marjorie Estiano conquista o público com a corajosa Marina da novela ‘Páginas da vida’

Por Alexandre Werneck
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Marjorie Estiano é cuidadosa. Fala escapando do observador, desviando o olhar para refletir. De vez em quando, permite-se conferir como o outro a olha e lhe devolve as pupilas. Mas logo depois mexe no cabelo, sorri e retorna ao olhar baixo. Com sua voz, de sotaque puxado nos “esses” de curitibana, vêm frases elaboradas e, sobretudo, tateadas. Ela toma cuidados. Fala na primeira pessoa do plural, como que a querer dividir a responsabilidade com um coletivo que é ela mesma (mas pode juntar amigos, familiares e assessores). É diplomática. Parece não querer agredir ninguém. Nem a si mesma. Ao ser perguntada, observa o interlocutor com um ar de não-estou-entendendo, para desmentir esse ar logo depois: ela é boa de respostas.

E tem recebido boas também. De público e crítica, todos impressionados com sua atuação como a jovem e corajosa Marina, na novela da TV Globo Páginas da vida, de Manoel Carlos. A atriz e cantora de 26 anos, sentada em um café de livraria no Leblon, explica tamanho cuidado:

– Tudo isso que me aconteceu assusta.

O “tudo isso” a que se refere foi ela ter aparecido para o Brasil, há três anos, na mesma emissora, como a temperamental roqueira Natasha, de Malhação, um papel de cantora que lhe rendeu na vida real o lançamento do disco que leva seu nome, um enorme sucesso.

– Essas coisas são todas descartáveis. O que eu queria na TV era descobrir como trabalhar com sua linguagem. Televisão sempre foi um meio, não um objetivo.

Depois da anti-heroína em uma novelinha adolescente, Marjorie foi convocada para uma atuação densa no horário nobre: Marina é filha do alcoólatra Bira (Eduardo Lago). Está nas mãos da jovem tentar a redenção do pai. Além disso, depois do primeiro disco, de músicas teen, lançou o DVD Marjorie Estiano e banda ao vivo, em que canta, além de um repertório jovem, Chico Buarque e Quincy Jones.

– Gosto de muitas coisas e ouço muitas coisas. Mas um primeiro CD nunca é a tradução de sua personalidade – diz ela, que deve entrar em estúdio até o fim do ano para um novo disco. – Nada disso fez parte de estratégias. Fomos trabalhando à medida que as coisas iam aparecendo – diz, dando à sua relação com o primeiro trabalho um tom de gratidão.

Mas é passado. Marjorie tem vôos mais altos a dar, por mais que sua doce diplomacia a impeça de reconhecer. Há, entretanto, quem ache que já chegou a hora. Manoel Carlos, por exemplo. O papel não caiu do céu no colo da moça. Ela fez um teste, acompanhado pelo novelista.

– Ela se destacou de primeira – diz ele. – Entre os personagens jovens, Marina era e está sendo o mais difícil e Marjorie correspondeu. Pelo meu método de escrever, o retorno do trabalho dos intérpretes é fundamental. E ela me dá um retorno altamente inspirador.

Seguindo a linha realista do autor, a moça diz que a melhor ferramenta para um ator é a observação:

– Os personagens estão na rua. Todos muito vivos, muito coloridos.
Para compor Marina, entretanto, ocorreu uma coincidência entre sua vida pessoal e a da personagem: o avô da atriz foi alcoólatra.

– Minha genética é maravilhosa para este papel – brinca, tirando o peso do assunto. – Minha mãe era muito nova quando isso aconteceu, assim como a Marina. Troquei muita idéia com ela.

Para Marjorie, a observação começou cedo. Pequena, dizia para a mãe que queria ser atriz e ouvia dela que tinha de estudar então. Aos 15 anos, ela começou a fazer um curso técnico de teatro em Curitiba. Ao se formar, foi para São Paulo, onde fez dois anos de faculdade de música e atuou em comerciais e peças – como na versão da comédia Bárbara não lhe adora, de Henrique Tavares. Em 2003, foi aprovada para a Oficina de Atores da Globo, e veio para o Rio. Mais um teste e estava em Malhação com sua personagem, que, a princípio, teria uma participação, mas acabou ficando em cena por quase três anos. Depois, veio Marina. Personagens demais em uma história tão curta de quem toma tantos cuidados?

– Aprendi a arriscar. Sempre tive medo de entrar em coisas novas. Mas como nunca vou ter total segurança de nada, então precisava correr riscos, tentar. Se desse certo, continuaria.

E tem dado. Marina mostra ao Brasil uma atriz segura de si, econômica o suficiente para tornar convincente uma personagem com tudo para ser over.