A turma do Bezerra
Um ano e meio depois da morte de Bezerra da Silva, o longa 'Onde a coruja dorme' estréia no Festival do Rio e revela o universo surpreendente dos compositores que forneciam os sambas do malandro

Gardênia Vargas

Bezerra da Silva na platéia, talvez soltasse a frase: "É... Nesse Brasil só se é homenageado quando se está morto". Soa como um lance do malandro, até porque está no estilo típico das inusitadas tiradas de vários de seus sambas. O fato é que o sambista, morto no ano passado, não viveu para ver o dinheiro da finalização para o documentário 'Onde a coruja dorme', dos diretores Márcia Derraik e Simplício Neto, aparecer. O filme, que tem sua primeira exibição nessa quarta, às 18h30 (cine Odeon - Cinelândia) no Festival do Rio, como parte da Premiére Brasil - Mostra Retratos (lá no fim do texto, estão os outros horários), mostra quem está por trás das música desse partideiro: os compositores do Bezerra. Todos são das favelas cariocas ou da Baixada Fluminese e se dividem entre a poesia e as profissões civis - torneiro mecânico, bombeiro, carteiro, técnico de refrigeração...

Quatros anos antes da morte do porta-voz do morro carioca, o curta Coruja foi o embrião do Onde a coruja dorme e colecinou prêmios em festivais de todo o país. Logo depois, foi feita nova edição nas 70 horas de material filmado e o documentário recebeu formato de média, (com 52 min) para exibição em TV. Fãs de Bezerra desde pequenos, os amigos e diretores Márcia e Simplício, juntaram forças e foram atrás do dinheiro. Quatro anos mais tarde, ganharam o edital da ANCINE em 2005 e finalmente puderam realizar o sonho de lançar o longa.

- O longa é o que queriamos fazer desde o começo. Não tem nenhuma relação com a morte dele. Queremos que sirva para Bezerra nunca ser esquecido - diz Simplício.

No filme, Bezerra aparece em plena forma, defende seus compositores e explica o porquê de sua músicas terem sido marginalizadas pela sociedade. Frases como "Com eles dizem a verdade, aquela que dói, por isso falam que sou cantor de bandido" ou "Já fui do Acre a Porto Alegre, vendo onde a coruja dorme", são mostra da verve de Bezerra numa época que pulsava a necessidade de expressão dos morros cariocas. Nos anos 90, Bezerra foi precursor de um tipo de denúncia social por meio da música. A identificação com os rappers brasileiros não é mera coincidência, Bezerra já falava de AR-15 e cocaína nos sambas. Realidade de morros e favelas, que por muitas vezes, a classe média prefere não enxergar.

- O impacto de um cronista do morro na minha geração (anos 90) foi determinante. Houve uma explosão do resgate da música brasileira. Hoje, grupos como Rappa e Racionais se identificam de cara com Bezerra. Ele é o James Brown da música brasileira - conta empolgado o diretor.

O filme mostra imagens dos futuros compositores testando seu potencial em frente a um gravador antigo, daqueles que tem de cantar bem alto e bem perto para conseguir gravar. Bezerra acompanha de perto cada letra nova, cada melodia. Só depois sua escolha será feita. Popular P, 1000tinho, Paulinho Alicate, entre outros, são os desconhecidos do grande público, mas autores de alguns dos maiores sucessos gravados por Bezerra da Silva. Como dizia o malandro:

- Á sua maneira cada compositor fala sobre seu dia a dia, sem salamaleque. As gírias são assim, entende quem está dentro, quem convive. Mas longe de achar que todo favelado é bandido, eles defendem seu ponto de vista, seja na política dos morros, seja na política do Brasil.

Filme: Onde a coruja dorme
Mostra: Première Brasil - Mostra Retratos Doc
Quarta - 27/09 - Odeon BR - 13h
Quarta - 27/09 - Odeon BR - 18h30
Domingo - 01/10 - Centro Cultural da Caixa Econômica 2 - 14h30
Domingo - 01/10 - Centro Cultural da Caixa Econômica 2 - 19h30
Segunda - 02/10 - Centro Cultural da Caixa Econômica 2 - 17h

<Confira aqui a programação completa>

 

Estréia retumbante