Música e fé são inimigas no iraniano Dois anjos

Por Gardênia Vargas

Um filme sobre o fanatismo religioso de um pai que condena a paixão pela música de seu único filho. Esse é o enredo, uma quase autobiografia, que o iraniano Mamad Haghighat escolheu para sua estréia em longa metragem. O diretor tem profundo conhecimento do cinema do Irã, já fez muitos curtas, fundou um festival de cinema iraniano em Paris e escreveu o livro "Histoire de Cinéma Iranien" (História do Cinema Iraniano), publicado pelo Pompidou Centre. Mas parece que todo esse conhecimento não bastou para Dois anjos (Two Angels. De Mamad Haghighat, Irã/França - Drama) seguir a tradicional cinematografia iraniana. O filme mostra-se superficial em seu debate central e não segue um roteiro comunicativo, ou seja, não consegue passar a mensagem claramente. O espectador mais atento terá que de se esforçar para se emocionar.

No interior do Irã, um pai arrependido vai a uma mesquita se confessar e, a partir daí, a história é contada por uma narrativa não cronológica. Temas como as diferenças entre pais e filhos, as expectativas dos pai sobre ele e a paixão contra a crença, são temas abordados pela história de Ali (Siavoush Lashgari. Um menino de 15 anos que, ao fugir de uma surra do pai (Mehran Rajabi), vai parar em lugar ermo, onde encontra um pastor tocando Nay (tipo de flauta) para suas olvelhas. Nesse momento, Ali descobre a música. Encoberto pela mãe (Fahimeh Rahimnia), o menino segue para Terrã, capital do Irã, em busca de uma escola de música. Lá ele conhece Azar (Golshifteh Farahani), uma menina moderna para seus padrões, que se tornará sua amiga e companheira.

A má interpretação dos atores confunde a visão de quem vê o longa. Chega-se a pensar que o olhar do espectador ocidental não estaria acostumado a posturas tão frias e didáticas, mas, ao lembrar de clássicos como O balão branco, de Jafar Panahi e Filhos do paraíso e A cor do paraíso, de Majid Majidi, é impossível resistir à comparação, rebaixando inegavelmente os atores de Dois anjos a atores sem preparação. O ponto alto da trama é a música, interpretada por Hassan Nahid, Ali Rahimi, Majid Akhshabi, Tahmoures Pournazeri, Arash Shahriari e Shab Shahriari.