Celso Franco
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Uma questão de coragem

Na edição de 27 de setembro, no JB, o excelente técnico Marcus Quintella advogava a tese do pedágio urbano como meio de melhorar o trânsito nas metrópoles e ainda criar uma excelente fonte de renda para financiar o transporte público. Neste seu artigo, Marcus Quintela faz referência à minha luta para convencer as autoridades oniscientes a implantá-lo. Note-se que, na minha proposição, levei em conta, por dever de ofício, o que recomenda o Traffic Engineering Handbook, quando diz: “Quanto melhor o engenheiro de tráfego conhecer os hábitos dos habitantes da cidade onde vai trabalhar, mais fácil será sua tarefa”.

Pensando nisto é que criamos o transporte solidário entre motoristas donos de automóveis, criando a opção de, se quiser e puder, andar sozinho, pagando muito mais e criando prêmios em dinheiro, por sorteio, a fim de incentivar um número maior de componentes do grupo de consorciados. Tudo de acordo com os hábitos do brasileiro e socialmente justo.
Segundo o articulista, em São Paulo, onde pretendemos implantá-lo tão logo passe a tempestade política, a arrecadação anual chegará a R$ 2,5 bilhões. A possibilidade, pelo sistema proposto, de diminuição do volume de tráfego variará de 50% a 70%.

Pois bem, no dia seguinte ao da publicação do artigo do Marcus Quintela, compareci a uma reunião do Acibarra – Associação Comercial e Industrial da Barra da Tijuca – a fim de ouvir do competente Engenheiro Carlos Eduardo Maiollino, a explanação do Plano de transporte e trânsito de Prefeitura, que não é da autoria dele, para atender aos jogos Pan-americanos de 2007. O planejamento traz no seu bojo a proibição do uso do automóvel para que o público compareça aos eventos, tendo apenas o transporte público para sua opção. Além disso, cria uma faixa exclusiva para atender ao transporte dos atletas da Vila Olímpica para os locais dos eventos, prevendo a retirada de uma faixa de rolamento das Linhas Amarela e Vermelha.

Tais providências decepcionaram e preocuparam a platéia. Houve, inclusive, a observação de um competente professor da Coppe, que chamou esta medida de um ato de terrorismo. Tudo isto poderia ser evitado se fosse introduzido, com a devida antecedência, o pedágio urbano, que criaria espaço para a circulação do tráfego intenso hoje existente e que deverá aumentar muito, além de não privar a ida aos eventos de carro.

Há cerca de dois meses, procurei o Comitê Olímpico Brasileiro, sugerindo o método simples e inteligente, utilizado na Alemanha, em que se vincula a compra do ingresso à vaga do estacionamento especialmente criado junto aos locais das competições. É só se criar um número de vagas compatível com a capacidade das vias de acesso. O sistema de controle seria o mesmo da nossa proposta de pedágio urbano: eletrônico por leitura de um chip colocado nos pára-brisas dos veículos dos componentes do consórcio. Esta solução garantiria o desempenho do Rio nos jogos de 2007, credenciando-o para sede de futuros eventos internacionais. Só falta a coragem de adotá-la a quem cabe implantá-la.