Para quem não agüenta mais animações computadorizadas, a melhor opção da semana, ironicamente, é a 11ª edição do Festival Internacional de Animação, Anima Mundi, em cartaz no Rio até o dia 20, em vários cinemas. Muitos dos filmes programados usam animação 3D, é verdade, mas a maioria usa técnicas mistas e há até trabalhos feitos a mão, sem passar em nenhum estágio de sua produção pelo computador. Dos filmes em cartaz na cidade - sem contar os que fazem parte do festival e da mostra Visões do corpo, no Cine Arte UFF -, 16 têm seqüências de animação. Desde os mais óbvios, como Hulk, Matrix reloaded e Procurando Nemo, a Num céu azul escuro, A creche do papai e Por um fio. Desses 16 filmes, 13 têm imagens geradas por computador - as exceções são O homem que copiava, Frida e Tiros em Columbine.
O polonês Andrzej Czeczot, diretor de Eden, um dos longas-metragens em exibição no festival, faz questão de dizer que o seu é um ''filme animado feito a mão''. O americano Todd Haynes, diretor de Longe do paraíso, se orgulha de não ter usado efeitos digitais em seu filme. Segundo ele, todos foram criados opticamente no momento da captação das imagens, através de iluminação e filtros (ou seja, como se fazia ''antigamente'', há cerca de três anos). Os filmes de Czeczot e Haynes são exceções. A nova ordem para os filmes animados é a animação 3D, totalmente gerada no computador; para os filmes ''tradicionais'', é captar imagens do modo mais neutro possível, os efeitos são adicionados digitalmente na pós-produção.
Atores e atrizes que temem perder o emprego com o avanço de uma tecnologia capaz de gerar uma Simone - personagem virtual do filme homônimo com Al Pacino - ou um Hulk, podem ficar tranqüilos: o star system está longe de terminar. Quem está com a carreira ameaçada é o diretor de fotografia.
A manipulação de imagens na pós-produção logo chegará ao ponto em que será possível usar Tom Cruise, aos 90 anos, como protagonista de Missão impossível 25. Basta que ele murmure algumas frases sentado em sua cadeira de rodas. Nem dublês serão necessários: Keanu Reeves, por exemplo, já é o dublê virtual de si mesmo nos episódios de Matrix. O bom e velho Cruise, digitalmente remoçado, escalará montanhas e enfrentará seus inimigos com a maior naturalidade.
Seus músculos flácidos serão binariamente revitalizados; sua voz sintetizada soará como um trovão. Nem será preciso procurar outra atriz para fazer o papel da sedutora Catherine Tramell quando refilmarem Instinto selvagem em 2038. A própria Sharon Stone, aos 80 anos, mas com um corpinho virtual de 20, poderá ser a protagonista, cruzando as pernas à vontade, certa de que um programa muito mais avançado do que o Photoshop, que hoje elimina defeitos das mulheres que posam para Playboy, estará a seu dispor.
Em 1989, James Cameron abriu a caixa de Pandora ao usar efeitos gerados por computador no péssimo O segredo do abismo. Foi o próprio Cameron, ao mesmo tempo pioneiro e medíocre, quem usou de novo a técnica em O exterminador do futuro 2 - O julgamento final. O guru de Cameron, Steven Spielberg, rapidamente assimilou a descoberta de seu discípulo e lançou O mundo perdido - Jurassic Park. Até aí, nenhum problema. Efeitos especiais em filmes de horror e ficção-científica - seja em computador ou em stop-motion - sempre foram lugar-comum.
Foram os irmãos Coen, norte-americanos, que até então editavam seus filmes analogicamente, quem realmente escancaram a caixa aberta por Cameron. Há apenas três anos, no filme E aí, meu irmão, cadê você?, eles se tornaram os mais notórios expoentes de uma técnica chamada digital mastering, usada antes em filmes como Pleasantville - A vida em preto e branco e Urbania - A vida na cidade. Muito resumidamente, esse procedimento permite capturar digitalmente o filme inteiro e manipular suas imagens como um todo, de um modo que antes não seria financeiramente viável. As cores, a tonalidade, a textura total do filme podem ser retocadas, ressaltadas ou recriadas ao bel-prazer do diretor no momento da edição. Um sonho formalista se tornou realidade.
A arte do cinema deixa de ser a síntese de uma dialética entre artista e mundo. O mundo não é mais necessário. O estúdio de Meliés em Montreuil cabe em um chip. André Bazin, o maior dos críticos não-formalistas da história do cinema, escreveu certa vez que a câmera de Jean Renoir acariciava a pele das coisas que existem no mundo. A câmera da maioria dos cineastas de hoje faz cócegas em imagens digitalizadas.